sexta-feira, 17 de agosto de 2012

RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) - parte 2


Uso de banco de dados

- Toda a informação pode gerar um arquivo

- Usar palavras-chave para criar arquivos: "Amazonia_Meio Ambiente_Desmatamento cresceu 11% em 2002, revela ministério-FSP-22-jun-2011.xls"

- Pen drives devem ser usados para guardar arquivos

- Programas de criptografia podem ser usados para deixar o pen drive fechado (isso é muito útil, evita o roubo de dados do pen drive). Há opções gratuitos para criptografia: http://www.truecrypt.org/ e http://www.pgpi.org/doc/pgpintro/

- O formato PDF é o ideal para fazer banco de dados, formato universal multiplataforma, arquivo leve que não costuma travar. O ideal é usar o Acrobat Professional para gerar seus PDFs. Uma opção gratuita, para arquivo do Word, é o Cute. Ele converte .DOC em .PDF - http://www.cutepdf.com/products/cutepdf/writer.asp

- O sistema operacional do Mac já é um grande banco de dados - ele organiza todos os arquivos e permite fazer buscar por palavras que estejam dentro dos arquivos. O Windows 7 tenta copiar isso, mas como sempre é um pouco pior. O DT Search (www.dtsearch.com) pode ser usado para fazer buscar em um computador PC


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Novas mídias no grupo RBS

Marta Gleich, diretora de internet do Grupo RBS, falou sobre as estratégias do grupo

- A empresa trabalha com conteúdos para jornal, site, celular, tablet etc. Em casos de grande repercusão há uma conjugação de mídas: no assassinato do secretário de Saúde Eliseu Santos, que aconteceu 21h, por exemplo:
- 1 - A notícia do fato foi enviada por celular para os assinantes do serviço
- 2 - O site também deu essa notícia e ao longo da noite foi atualizando
- 3 - O site trouxe infográficos com o local do crime na madrugada usando o Google Maps
- 4 - O jornal do dia seguinte trouxe análises da morte e material exclusivo (o secretário era ligado com desmanches de veículos)
- 5 - Vídeos no site e acessados na internet traziam comentários e entrevistas com pessoas relacionadas com o caso


- Covered Live
A RBS usa o programa Covered Live para fazer grandes coberturas, como dos jogos do Gre-Nal. Todo o material produzido no dia e especial vai para o site, incluindo interação com a audiência
http://www.coveritlive.com/
http://www.clicrbs.com.br/esportes/rs/futebol-grenal100/
http://wp.clicrbs.com.br/prejogors/tag/gre-nal-383/?topo=2,1,1,,,2


- Infográficos na internet
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/swf/especial_segunda_guerra/index.html
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/swf/pordentro_dunas/index.html
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/swf/grafico_especial_emergencias_poa/index.html
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a3276490.xml
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/swf/brasil_de_bombachas/index.html
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/swf/especial_obrastransito/index.html


Parte das apresentações estão em
http://www.slideshare.net/DigiTalks/comunicao-digital-marta-gleich-rbs-online-no-digitalks-porto-alegre-2010


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Investigações de empresas - Elvira Lobato


+ Caso Oi
A Brasil Telecom obteu rapidamente a concessão para vender celular usando a marca Oi. A contrapartida exigida pela Anatel era que a empresa cumprisse uma meta de oferta de linhas fixas
A empresa claro que divulgou que cumpriu todas as metas
Para checar isso a jornalista foi em juizados especiais do estado do Rio de Janeiro. Choviam reclamações de usuários que pagaram pelo serviço, mas não tinha o telefone instalado
O Ministério Público foi avisado e o caso foi parar na Anatel


+ Caso Daniel Dantas
Sócios brigando uns com os outros - surge oportunidade de informação, mesmo em empresas fechadas


+ Caso Vasp
Uma das vendas que deram errado da Vasp envolveu um grande golpe
Foi dado por um bispo evangélico carioca, até então desconhecido no país, que apareceu para comprar a empresa
Não havia informação sobre ele, mas no site do Tribunal do Justiça constava o nome dele em um processo (o picareta estava comprando a Vasp, mas devia um dinheirão). No processo tinha o nome do advogado
O advogado foi encontrado com a ajuda da OAB - ele disse que o bispo estava sumido, mas tinha o nome da igreja dele
Em um cartório, com o nome da igreja, foi encontrado o endereço
Na igreja descobriu-se que o pastor estava sumido, morava numa favela e devia para todo mundo
Isso desmoralizou a venda

+ Caso Universal
Ela ligou numa rádio da Universal dizendo que era um anunciante e queria fazer propagandas em todas as rádios no país. Aí recebeu a lista de rádios da Universal - a maioria não era conhecida até então, estavam no nome de parentes e laranjas
A matéria sobre o crescimento de patrimônio da Universal, marcando seus 30 anos, causou fúria na igreja. Foram 110 ações em juizados especiais, em cidades pequenas em várias pontos do país e simultâneas. A jornalista ou seu representante era obrigada a comparecer, ou seria presa


Locais onde se pode descobrir informações de empresas e formas:
CVM - www.cvm.gov.br
Comprar ações com direito a voto das empresas, isso dá direito de participar de reuniões de acionistas
Cartórios (serviço é pago)
Juntas comercias - a de São Paulo tem serviços online - http://www.jucesp.fazenda.sp.gov.br/


Tipos de empresas e locais com informações
SC: cartórios
LTDA: Junta Comercial
SA: CVM
SA capital fechado: livro de acionistas das empresas - tipo mais difícil de conseguir dados




www.portaltransparencia.gov.br - como dito no texto da parte 1, mostra empresas que tem contratos com o governo federal e seu CNPJ. Na Receita dá puxar a capivara das empresas com isso


O Estado de São Paulo também tem um portal de transparência, mas é confuso - www.fazenda.sp.gov.br/contas

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

RAC (Reportagem com Auxílio do Computador) - parte 1


-  Iniciada por Philip Meyer – jornalista norte-americano  – 1968
Em Detroit , fez pesquisa sobre movimentos sociais utilizando um mainframe – tabulação
Escreveu um livro depois “Precision Journalism”, que virou referência na RAC – dá para ler na web  em inglês

- Na década de 1980 saiu o primeiro prêmio Pulitzer utilizando RAC. Utilizando a lei de acesso às informações públicas, jornalistas do  "Atlanta Constitution"  requisitaram ao “BNH” de lá os dados de financiamentos habitacionais. Eles  foram  tabulados
Foi descoberto  que  se havia dois candidatos na mesma situação,  mas um negro e um branco, o negro tinha menos chances de receber crédito. Com isso caiu toda a direção do “BNH” da Georgia

- Na mesma época foi fundada a associação de RAC dos EUA. Lá existem100 cursos de jornalismos apenas. No Brasil, são cerca de 480

- A RAC chegou em Brasil por volta de 1995 com a popularização da internet. Primeiras matérias foram sobre o censo de 1991. (O Brasil tem Censo em ano 1 porque o Collor desorgonizou o país tanto que o IBGE ficou sem verba, por isso foi adiado. É o único país do mundo com censo em ano 1)

- A Folha começou a RAC no Brasil. Trouxe treinadores disso do México. A Abraji foi criada em 2003 e  a popularização cresceu

- 2005 – primeiro prêmio Esso de RAC no Brasil – “Homens de bem” , reportagem do jornal O Globo  –  sobre o crescimento gigante de patrimônio dos deputados do Rio – levantaram informações em cartórios e digitaram as informações no Excel e foram a campo para checar se os bens declarados batiam mesmo.

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-> Busca avançada na Internet
Pesquisa avançada do Google   – http://www.google.com.br/advanced_search
Usando essa página a pessoa não precisa saber a linguagem da busca booleana . O grande problema de uma busca da internet, por incrível que pareça, é a quantidade excessiva de resultados. A pesquisa avançada diminui muitos os resultados, só para aquilo que você realmente procura

 Campos de busca  principais :
- com todas as palavras;
- expressão (na ordem que digitou – procurar nomes);
- qualquer uma das palavras (casos de desespero, combinar buscas de expressão com outras palavras-referências a nomes);
- sem as palavras (eliminar palavras da busca)
-  Domínio: pode ser .gov.br,  . matao.br,  . edu.br...  -> isso é muito bom, por exemplo, você precisa encontrar no Ministério da Saúde tudo relacionado a gripe, é só colocar "gripe" e as palavras finais do site "saude.gov.br"
-  Formato: PDF, DOC, XLS... – dá para combinar com o domínio (acha só arquivos em sites de governo)
-  Data  - dá para achar só coisas deste mês, semana, ano

Governo dos EUA faz isso - começa a busca pelo maior número possível de palavras relacionadas – menor o número de resultados, maior a eficácia

Outro buscador: pipl (people - especializado em encontrar pessoas)
http://pipl.com/ - Esse buscador é extremamente útil. Se você tem um nome para investigar ele vai mostrar tudo que a internet tem sobre o cara. Se é uma pessoa pública, por exemplo, a busca pode indicar a lista de livros favoritos da pessoa em um site de compras, isso já ajuda a fazer um perfil do cara

Conteúdo escondido
Mecanismos de buscas só conseguem em média achar 30% do conteúdo online. Robozinhos ficam vasculhando a rede buscando conteúdos novos, esse conteúdo é copiado para servidores, todas as palavras dessas páginas são lidas e é criado um índice que vai guiar as buscas. As rotinas de computador ainda não são capazes de preencher formulários . 70% do conteúdo são páginas dinâmicas formadas a partir de banco de dados, que são acessados só preenchimento de formulários

Como achar os outros 70%? – Preenchendo formulários, baixando arquivos:

CPF – Receita verifica  - http://www.receita.fazenda.gov.br/Aplicacoes/ATCTA/CPF/ConsultaPublica.asp

IBGE – dados populacionais  - http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1

Portal da Transparência – quanto o governo Dilma pagou para empreiteiras , por exemplo - http://www.portaltransparencia.gov.br/

Estatísticas TSE – resultados de eleições  - http://www.tse.gov.br/internet/eleicoes/estatistica2010/est_candidatura.html

Projeto Excelências – acompanhar desempenho de Assembleias, trabalho do Supremo  - http://www.excelencias.org.br/@resumo_verbas.php

Mashup – fusão de linguagens – rádio com imagem, mapas com informações online
Newspapermap.com – mapeamento de jornais pelo mundo  - http://newspapermap.com/


Exemplo de um uso interligado de tudo isso / Estimular sinapses (ligar lé com cré)

+ O “polígono da violência” no Estadão –  http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110530/not_imp725612,0.php
http://blogs.estadao.com.br/vox-publica/tag/infograficos/
Estadão analisou os dados do  Datusus – congrega informações de saúde pública – Rede SIM – informações de mortes violentas no Brasil , mais confiáveis do que as da polícia, porque os médicos registram tudo
Os dados de homicídios encontrados no Pará eram assustadores. Aí veio a sinapse - tiveram a ideia de comparar o mapa de mortes no Pará com o do desmatamento - bateram igualzinhos

60 assassinatos por 100 mil habitantes – similar na época a mais alta do mundo em Honduras
Caso do Pará – mapas com municípios mais violentos sobreposto com o do desmatamento – há enorme superposição
Depois o jornalista foi em Marabá in loco. A região atraiu muita população recentemente para garimpo e usina de Tucuruí, madeireiras. Cortaram todas as árvores , sobrou quase nada, só reservas, mas a pressão social e econômica continuou muito grande. Muitos madeireiras paradas, as pessoas precisam sobreviver e aí os conflitos acontecem nas reservas e as várias mortes.

Exemplo de uso:

Óbitos por causas externas – assassinatos  / divide número de assassinatos por habitantes -> taxa por cem mil habitantes
Estatísticas Vitais (mortes):
http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205
EXEMPLO
Dados preliminares de 2009
Óbitos por causas externas
Abrangência Geográfica:
Unidades da Federação
Linha Unidade da Federação
Coluna Sexo
Conteúdo Óbitos por Residência (onde o morto morava) / por ocorrência (onde foi) – residência mostra mortes representadas nas cidades
CID 10 – Agressões (classificação internacional de doenças)
Ordenar pelos valores


Abrangência Geográfica:  tabela de população - residente
Tabnet - o próprio Datasus fornece o software para fazer o georeferenciamento – para saber se cidades com muitos assassinatos são próximos

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Exemplos de uso do Portal da Transparência e da Receita

- Portal da Transparência  - http://www.portaltransparencia.gov.br/
CEIS – Cadastro de empresas descadastradas
Gastos diretos de governo – 2008 – por cartão de pagamento por portador – dá para ordenar por valor e obter informações por servidores

Gastos Diretos do Governo
por Favorecido - Pessoas físicas, empresas e outros
Em 2011 a construtora Delta era a maior favorecida - dá para ver seu CNPJ no portal e checar na Receita

http://www.receita.fazenda.gov.br/ - Empresas – certidões – emitir certidão
Emissão de nova certidão – não sai a certidão negativa dessa construtora  - pode ser problema de cadastro ou enorme dívida na Procuradoria:

  Emissão de 2ª. via da certidão – é possível  - constam débitos relativos a tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil (RFB) com a exigibilidade suspensa, nos termos do art. 151 da Lei no 5.172, de 25 de outubro de 1966 - Código Tributário Nacional (CTN); e

 Constam nos sistemas da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) débitos inscritos em Dívida Ativa da União com exigibilidade suspensa, nos termos do art. 151 do CTN, ou garantidos por penhora em processos de execução fiscal.

Delta teve emissão de certidão antiga correta, então usa essa velha para continuar participando de licitações


 ->  Saber endereço e dados básicos do dono do CNPJ  - site da Receita

Empresa – cadastro CNPJ  Emissão de Comprovante de Inscrição e de Situação Cadastral  


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Exemplos de bancos de dados

Elio Gaspari – tem seu próprio banco de dados, com tudo que ele acredita que possa ser relevante no futuro (conversas, matérias, entrevistas, trechos de livros...) com palavras-chave, datas das informações sendo fichadas.  Links e fontes das informações
Mangabeira Unger foi nomeado ministro. Elio procurou “Lula” “Mangabeira Unger” em seu banco de dados. Descobriu que novo ministrou detonou chefe no passado. O link dessa informação era um artigo dele em Havard, que foi tirado do ar
Elio tem outro banco de dados. Tudo que ele aprendeu sobre a ditadura militar, incluindo o arquivo do Golberi. Ele mesmo diz que quem escreveu a série de livros sobre a ditadura foi seu banco de dados


Gay Talese – está escrevendo um novo livro sobre seu próprio casamento.  No térreo de sua casa ele mantém um banco de dados do casamento (notas fiscais, discussões, traições...). A memória falha, fica menos sujeito ao viés de confirmação


Evernote – programa gratuito para fazer banco de dados – online
Pode guardar notas de texto, documentos em PDF, qualquer arquivo até 50 mega, foto, áudio, vídeo  - fotografa documentos, vai para servidor do Evernote – transforma tudo que é texto na imagem em texto para ser buscado depois
http://www.evernote.com/

File Maker - http://www.filemaker.com/ - Gaspari usa
Para Macs principalmente, mais fácil de usar, com fichas, organizadas em ordem cronológica, dá para juntar tabelas (banco de dados relacional)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Como atualizar valores pela inflação



Imagine um investimento de R$ 945 milhões em 2008.

Qual seria esse valor atualizado para 2012?

Passos:

1. Acessar o site http://www.ipeadata.gov.br/

2. Acessar os dados de séries históricas: Clicar em Macroeconômico - Séries mais usadas

3. Selecionar, por exemplo, IPCA - geral - índice (dez. 1993 = 100)

4. Divida o valor atual do IPCA de 07/2012 (3.497,7000) pelo de 07/2008
(2.846,1600) e chega-se no valor de 1,2289189644995362172189897967788.

5. Esse valor multiplicado pelo investimento em 2008 dá R$ 1.161.328.421 (R$ 1,2 bilhão arredondados)

terça-feira, 17 de julho de 2012

Ortodoxos X Heteredoxos


“Comparação de textos e ideias de dois economistas de linhas pensamentos diferentes”


INTRODUÇÃO
Este presente trabalho compara dois textos de economistas brasileiros sobre a crise na indústria nacional. Os textos escolhidos foram publicados no jornal “Valor Econômico”: “Os desafios da (re)industrialização” (3 de abril de 2012), de Luiz Gonzaga Belluzzo, e “O debate sobre a crise na indústria” (19 de março de 2012), de Luiz Carlos Mendonça de Barros.
Os dois profissionais seguem linhas de pensamento diferentes e este trabalho vai mostrar como essas diferenças aparecem nos textos analisados. Uma das grandes classificações econômicas é a ortodoxia, ou “mainstream economics”, que se caracteriza por uma abordagem das expectativas racionais da macroeconomia e se desenvolveu a partir da economia neoclássica em fins do século XIX, caracterizada principalmente por determinar preços, produção e distribuição resultantes da interação da oferta e demanda dos mercados. A ortodoxia é comumente ligada ao Consenso de Washington, ao monetarismo e à escola de Chicago. Seus adeptos hoje são mais conhecidos como neoclássicos e neokeynesianos.
 Já a heteredoxia não concorda com as expectativas racionais da macroeconomia e considera mais importante os conceitos de instituições, história e estrutura social. Todos os tipos de socialismo são considerados heterodoxos, mas nem todas as escolas heterodoxas são socialistas. Os heterodoxos aceitam a intervenção do Estado, enquanto que os ortodoxos acreditam em maior número no livre equilíbrio entre oferta e demanda. Os seguidores mais comuns da heteredoxia hoje são os marxistas e pós-keynesianos.

PERFIS
Luiz Gonzaga Belluzzo é um economista heteredoxo. É ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo Sarney), professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e tem formações em Direito (USP), Ciências Sociais (USP), pós-graduação em desenvolvimento econômico, promovido pela CEPAL/ILPES, e doutorado em economia pela Unicamp. Em 2001, foi incluído no Biographical Dictionary of Dissenting Economists entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX.
Luiz Carlos Mendonça de Barros é um economista ortodoxo. É graduado pela USP em engenharia de produção e doutor em economia pela Unicamp. É ex-presidente do BNDES (novembro de 1995 a abril de 1998) e ex-ministro das Comunicações (abril de 1998 a novembro de 1998) no governo Fernando Henrique Cardoso. É diretor-estrategista da Quest Investimentos.

DESCRIÇÃO E ANÁLISE
è Texto de Luiz Gonzaga Belluzzo
As idéias expostas por Belluzzo fazem uma grande crítica aos adeptos da não intervenção do Estado na economia e também aos efeitos da liberalização. Já no primeiro parágrafo ele afirma que as “políticas industriais e de fomento coordenadas pelo Estado foram lançadas no rol dos pecados sem remissão” nos anos 1980 e cita dois políticos extremamente criticados pelos heteredoxos como defensores dessa postura, o 40º presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e a ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher.
No Brasil, o autor afirma que a crise da dívida externa favoreceu a adoção de políticas liberais, as quais criaram um “desconforto com o reconhecimento dos direitos sociais e econômicos consagrado na Constituição Cidadã de 1988”. E também aponta que o Estado estava “financeiramente prostado” com uma crise fiscal e monetária e por causa dos programas impostos pelo FMI.
Prosseguindo no tempo, Belluzzo fala do receituário implantado pelos “reformistas liberais” após a “bem-sucedida estabilização de 1994”, como abertura comercial, privatizações e liberalização cambial. Para o autor, isso destruiu o “setor produtivo estatal”, área que seria muito necessária num “país periférico e de industrialização tardia”. Ele escreve também que as privatizações causaram a diminuição do investimento em infraestrutura.
Ao falar do presente o autor aponta que os problemas das importações predatórias, do “real forte” e da estagnação de investimentos “só serão reparadas com o aumento dos gastos na formação da nova capacidade, sobretudo setores novos e intensivos em tecnologia”. Belluzzo chega a citar que será necessário o “animal spirits” dos empresários, famosa expressão usada por John Maynard Keynes para falar das emoções que influenciam o comportamento humano. O autor também defende uma centralização do capital em empresas com escala, elevação dos gastos do Estado, estímulo a criação de bancos com crédito de longo prazo e a constituição de um fundo soberano com os recursos do pré-sal para criar poupança de longuíssimo prazo.

è Texto de Luiz Carlos Mendonça de Barros
O texto faz uma crítica às “medidas pontuais” adotadas pelo governo federal para tentar sanar a crise na indústria brasileira, como a aceleração dos cortes de juros e ações para tentar brecar a entrada de capitais financeiros. Barros afirma que “a presidente ameaçou o mercado com uma medida provisória a cada dia para estancar a especulação cambial”.
Para o autor as causas da crise da indústria são outras. Ele cita motivos estruturais ligados a intervenção do Estado, como a “absurda carga de tributos – federais e estaduais – que onera o custo da energia elétrica para a indústria”. Barros sustenta também que o Brasil tem hoje uma economia de mercado organizada que responde naturalmente a mudanças estruturais causadas por novas condições internas e externas (maior competição externa, por exemplo), desse modo ele rechaça a “tentativa artificial” do governo de praticar intervenções na economia, pois podem “gerar tensões e, no longo prazo, distorções perigosas em vários mercados”.
Dois setores nacionais com eficiência e produtividade estariam sendo prejudicados pela intervenção do governo, a agricultura e o mineral, segundo Barros. Ele descreve em detalhes o problema da agricultura: para se livrar da “dependência” do crédito do Banco do Brasil o setor passou a usar uma modalidade de crédito externa chamada de antecipação de pagamentos por conta das exportações futuras, possível graças à confiança na agricultura brasileira e no real, mas esse mecanismo foi prejudicado pela “cruzada contra a valorização especulativa do real” com a imposição de um IOF de 6% na entrada destes recursos. Desse modo, os produtores brasileiros estariam perdendo a oportunidade de desfrutar dos juros baixos dos mercados internacionais de crédito.

è Análise
Há uma dicotomia básica nos textos entre o Estado intervir ou não na economia para ajudar a indústria nacional. Belluzzo defende que a liberalização retirou muitos incentivos e investimentos para a indústria. Já Barros afirma que os problemas da indústria são estruturais, justamente pela mão do Estado, e que, além disso, as medidas do governo causam desequilíbrios no mercado.
Nessas ideias aparecem argumentos históricos da heteredoxia e ortodoxia. Por um lado há a defesa de um Estado orientador e organizador da economia e por outro um Estado com participação discreta, que deixa os agentes do mercado equilibrarem as forças da economia.
E esse tema da desindustrialização, dependendo da visão, comporta tanto a explicação de motivo a competição externa e o real valorizado como o chamado Custo Brasil (burocracia, carga tributária, falta de infraestrutura etc.). Os dois lados têm bons argumentos, mas deve-se tomar cuidado com os usos políticos dessas visões na cobertura jornalística e procurar sempre dar espaço às diferentes visões.

LOCALIZAÇÃO DOS ARTIGOS

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os impasses para solucionar a dívida da Europa


(Relato de viagem ao velho continente em janeiro)

No dia 16 de janeiro de 2012 nosso grupo fez uma visita em Frankfurt na Finance Agency, um órgão privado contratado pela República Federal da Alemanha para gerir os juros dos títulos públicos alemães.
Nosso painel foi com Thomas Weinberg, o chief trader da Finance Agency. Ele é uma das pessoas que tem a imensa responsabilidade de lidar com a dívida pública da Alemanha, que é de 74,8% do PIB, ou cerca de um trilhão de euros.
A dívida dos países europeus hoje faz seus presidentes e chanceleres arrancarem os cabelos com tanta preocupação. Mesmo a Alemanha, economia mais forte da Europa e terceiro maior exportador do mundo, sofre com sua dívida alta.
Os governos de quase todos os países do mundo se financiam vendendo títulos públicos de suas dívidas, normalmente de longo prazo, 10, 20 anos. Se há muitos investidores interessados nesses títulos não há problema, a dívida é administrada e os governos não precisam oferecer taxas de juros altas.
Mas como o endividamento da Europa está enorme, países periféricos como Grécia e Portugal e até economias maiores como a Itália e Espanha precisaram subir seus juros, o que no limite pode tornar as dívidas impagáveis e trazer o temido default (calote).
A Alemanha vem sendo bem aceita pelos investidores e mantém seu triple AAA na avaliação de risco, diferente da França que foi rebaixada no começo do ano. Mesmo com essas boas condições o montante de dinheiro que a Alemanha precisa arrecadar é enorme.  Thomas Weinberg contou que apenas na quarta-feira, dia 18, a Alemanha precisaria levantar 5 bilhões de euros com a venda de títulos.
A Finance Agency tem o papel de negociar a venda dos títulos públicos alemães com os bancos e tentar baixar os juros. O que o governo quer é vender o máximo de títulos pelo maior valor possível. A venda é feita através de leilões.
Em novembro de 2011 a Alemanha já enfrentou problemas com a venda de títulos: a demanda ficou abaixo da oferta. Esses títulos ofereciam aos seus compradores uma remuneração de 1,98% ao ano.
Os governos culpam uma contaminação na zona do euro - as incertezas dos outros países sobre sua capacidade de pagamento acabam afetando o humor do investidor, que passa a desconfiar que as economias grandes vão ter sérios problemas num futuro próximo para honrar seus gastos.
E há razões para esse mau humor: a Grécia deve 138% de seu PIB e a Itália 119%. A opinião de muitos economistas é que essa situação só se resolverá em conjunto, não adianta cada país vender individualmente seus títulos públicos. A solução seria a criação de eurobonds pelo Banco Central Europeu, assim esses títulos seriam garantidos por toda a União Europeia, que em cojunto soma um PIB de mais de 14 trilhões de euros.
Mas aí o chucrute alemão azeda. Weinberg foi taxativo: a criação de eurobonds hoje é impossível. A Alemanha como maior economia do continente ficaria com o maior prejuízo para pagar os eurobonds aos investidores. Para Weinberg os eurobonds só seriam viáveis se os países além da união monetária também tivessem união fiscal, enxugando em conjunto seus gastos públicos e melhorando sua arrecadação de impostos.
O fator político torna isso um monumental desafio. Os 17 países da zona do euro e os 27 da União Europeia deveriam chegar a um acordo e tomar decisões impopulares para um ganho só de longo prazo. Weinberg também citou o fator complicador das eleições na França neste ano. E realmente em maio Nicolas Sarkozy veio a perder sua cadeira de presidente para o socialista François Hollande, político que vem se mostrando muito contrário a políticas de austeridade.
Como bom alemão Weinberg só vê resolução definitiva desse problema no longo prazo, em décadas. Mas ele deixou a frieza de lado e disse no final que só a solidariedade dos países vai tirar o continente da crise, ou seja, todos terão que ceder. O cidadão de cada país terá que se sentir também europeu do que apenas um italiano, grego, alemão, belga, inglês, francês, português, para aceitar e ajudar nas mudanças.
Alemanha sob pressão
Este artigo é escrito em junho. Desde que retornamos ao Brasil a situação do euro veio se deteriorando e tem capítulos novos quase todas as semanas. Os mais recentes: a Grécia convocou novas eleições para 17 de junho para tentar, enfim, criar um governo que administre os atuais acordos de resgate ao país e tenha ao mesmo tempo respaldo popular e político (tarefa considerada mais dura que os 12 trabalhos de Hércules) e a Espanha vive uma grave crise bancária, sendo que a pior situação está no Bankia - terceiro maior banco espanhol em ativos – o qual precisa de 19 bilhões de euros para sanar suas perdas com empréstimos imobiliários.
Há um temor no mundo de que a Grécia abandone a moeda comum para voltar ao dracma. Em tese a antiga moeda grega poderia ser desvalorizada e estimular a fraca economia do país. Na situação atual o euro tem sua política monetária controlada pelo Banco Central Europeu e por isso os gregos são obrigados a vender seus produtos e serviços com um câmbio alto, o que retira boa parte da competitividade do país. E sem estimular sua economia a Grécia fica cada vez mais sem força para vender seus títulos. Mas então por que a Grécia não diz logo adeus ao euro? As dívidas do país são tão altas que seria uma catástrofe para bancos e governos credores uma ruptura abrupta com um inevitável calote. O custo da saída da Grécia da zona do euro é estimado em 1 trilhão de euros.
A Espanha também tem uma situação frágil. O país teve déficit orçamentário de 8,5% no ano passado e mesmo assim fará um leilão de bônus do Tesouro para levantar os recursos para o pacote de socorro de 19 bilhões de euros que será concedido ao Bankia. O fundo de socorro bancário da Espanha tem hoje apenas cerca de 9 bilhões de euros e os títulos da dívida do país com vencimento em dez anos alcançaram no final de maio o pico na taxa de 6,7%, se aproximando cada vez mais do nível de 7%, patamar considerado insustentável por analistas. Cresce então a possibilidade de um pedido de socorro internacional, como ocorreu com Grécia, Portugal e Irlanda.
O grande problema é que a Espanha não é um país pequeno como esses três. Um resgate para a Grécia, com 10% do PIB de sua economia, custaria algo como 23 bilhões de euros. Já uma ajuda de longo prazo para a Espanha, segundo analistas, poderia atingir até 300 bilhões de euros, valor extremamente difícil de ser levantado porque o FMI e a União Europeia já possuem programas de ajuda em andamento para outras nações. Por tudo isso já existem movimentos na Espanha que defendem também que o país abandone o euro e retorne para a peseta.
Esses graves fatos aumentam a pressão na Alemanha e em outros países mais ricos na zona de euro, como Finlândia e Holanda, os quais vêm se posicionando contra assumir mais responsabilidades por problemas financeiros dos parceiros mais fracos. Nos últimos meses grandes forças da Europa e do mundo passaram a defender os eurobonds e mais integração dos bancos.
O líder da Comissão Europeia, o órgão executivo da UE, o português José Manuel Barroso, pediu que os 17 países do euro façam uma união bancária para permitir que seu fundo de resgate, o Mecanismo Europeu de Estabilidade, empreste diretamente a bancos vulneráveis - em vez de obrigar o país de origem da instituição a negociar um pacote de socorro, ação que pioraria mais as finanças do país. A Comissão Europeia defende também um fundo pan-europeu de garantia de depósitos. Vale citar que paralelo a essas demandas o órgão executivo também foi duro com os países ao recomendar que os 27 da União Europeia diminuam seus déficits orçamentários para 3% do PIB, tarefa dificílima para a maioria das nações.
Outra pressão para mudanças vem do próprio Banco Central Europeu. Seu presidente Mario Draghi pediu uma autoridade mais centralizada para supervisionar os bancos com problemas, como o espanhol Bankia e o Dexia na Bélgica. Atualmente, a maioria dos poderes para regular os bancos está com as autoridades nacionais; o regulador regional existente na União Europeia, a Autoridade Bancária Europeia, possui poderes limitados.
Já a defesa dos eurobonds está vindo de líderes como o primeiro-ministro da Itália Mario Monti, do presidente francês François Hollande e recentemente do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick. Em entrevista ao “The Wall Street Journal” o norte-americano argumentou que o continente europeu terá um longo caminho de incertezas por causa de fatores como a redução lenta da dívida e a volatilidade nos preços do petróleo e de outras commodities. Nesse cenário a emissão de algum tipo de títulos da zona do euro daria apoio a países mais fragilizados e acalmaria os mercados. “Seria um erro voltar ao tipo de estímulo de 2008, que foi de infraestrutura pesada, farra de investimentos e ampliação do crédito”, acrescentou.
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se manifestou pela primeira vez favorável aos eurobonds em maio, mas com ressalvas. Ela quer essa alternativa apenas para países que precisam de investimentos urgentes de infraestrutura e ainda condicionou essa opção a um pacto fiscal entre os países.
O novo pacto fiscal foi aprovado no final de janeiro, pouco depois de nosso grupo retornar para o Brasil, em uma cúpula dos países da União Européia. Seu objetivo é garantir que a zona do euro seja um sistema de moeda estável. O tratado introduz regras mais duras de disciplina fiscal e força os países a adotar políticas econômicas coordenadas. Também busca melhorar o modo como as nações lidam com a zona do euro, fortalecendo o sistema de governança. Porém, o pacto fiscal precisa ser ratificado por cada país em separado. Durante a cúpula em janeiro, o Reino Unido e a República Checa foram os únicos entre os 27 países do bloco europeu que não assinaram o tratado fiscal. Esse documento precisa ser aprovado por 12 dos 17 países da zona do euro para entrar em vigor.
Há muita pressão contrária na Europa contra a aprovação do pacto fiscal, como na França e Irlanda (este último só aprovou o pacto através de um referendo). E até na Alemanha, de novo, Angela Merkel mostrou sinais de recuo para conseguir aprovar o pacto fiscal. Para conseguir o apoio da oposição social-democrata e dos verdes ela anunciou em junho um pacote de medidas para fomentar o crescimento econômico e a criação de emprego na União Europeia. Merkel sugere em seu plano medidas como o aumento de 10 bilhões de euros do capital do Banco Europeu de Investimentos e de 15 bilhões de euros de sua capacidade de crédito anual, e apoiou também o plano da Comissão da UE de utilizar uma grande parte de seu orçamento, cerca de 7,3 bilhões de euros, na luta contra o desemprego juvenil e a usar meios do Fundo Social Europeu para a formação profissional nos países em crise.
Já o Banco Central Europeu tem dado declarações mais moderadas de mudança. Em junho o membro do Conselho Executivo do BCE  Joerg Asmussen afirmou que o pacto fiscal da Europa não deve ser renegociado nem suavizado, mas pode ser complementado com medidas para aumentar o crescimento.
Como se vê num continente com vários países com situação econômica, líderes políticos e histórias tão diferentes, as mudanças, mesmo que sejam para tentar o melhor, são lentas. Foi algo que durante nossa viagem a diretora-geral de comunicação da Comissão Europeia, a portuguesa Margarida Marques, nos falou em Bruxelas no dia 20 de janeiro.
Ela explicou que os mercados têm atacado com mais pressa a União Europeia do que a velocidade das ações implementadas para diminuir a crise. O pacto fiscal, nas palavras dela, deve trazer "mecanismos para o euro funcionar melhor de acordo com o mercado".
A homogeneização fiscal na Europa sempre foi um tabu e causou briga entre os países, já que nem todos têm bala na agulha ou lideranças políticas menos populistas para cortar gastos. O que está sendo sugerido é uma taxa máxima de déficit público em relação ao PIB de 3%, mas progressiva de acordo com cada país.
Outra importante mudança é que os países passariam a apresentar seus Orçamentos do ano que vem no primeiro semestre do ano corrente, desse modo a Comissão Europeia poderia analisar os números e sugerir mudanças. Também estão previstas sanções no pacto fiscal, ou seja, os países que gastarem demais teriam algumas ajudas canceladas, como a dos fundos estruturais.
Sobre a crítica do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, de que o pacto fiscal trará mais desemprego, Margarida reconheceu esse risco e disse que isso representa um grande desafio. "Construir políticas sãs e criar empregos ao mesmo tempo é nosso grande desafio para os próximos anos", disse.
Nessa viagem vimos vários europeus admitirem que esperam cerca de dez de baixo crescimento ou mesmo recessão, tudo em nome de um planejamento para arrumar as finanças do continente e evitar a inflação. Por exemplo, em Mannheim na Alemanha no ZEW (Center for European Economic Research), um dos grandes think tank de economia do continente, o pesquisador Friedrich Heinemann falou abertamente que a "recessão é parte do ajuste".
Essa obsessão também tem uma explicação histórica: houve um momento na Europa em que o descontrole da hiperinflação trouxe consequências desastrosas, na Alemanha em 1923, quando Adolf Hitler começou a surgir e depois quase destruiu todo o continente. Esse fantasma ainda está na mente dos europeus e parece também guiar a condução da atual política econômica.
Mas o agravamento da crise na Grécia e Espanha e o discurso mais moderado dos líderes europeus sugerem que a austeridade deve perder gradualmente espaço para medidas que apóiem mais crescimento e integração. Resta saber duas coisas: essas novas medidas virão a tempo e, principalmente, se vão funcionar.

domingo, 3 de junho de 2012

Análise da cobertura do Valor Econômico sobre as mudanças das regras da caderneta de poupança



No dia 4 de maio de 2012 o jornal “Valor Econômico” fez uma grande cobertura sobre
as mudanças das regras da caderneta de poupança anunciadas um dia antes pelo ministro da
Fazenda Guido Mantega. O tema foi manchete geral do periódico, “Poupança muda e juro real
cai a 2,45%, o menor desde o Plano Real”, e internamente recebeu oito textos (dois de opinião
e seis reportagens) em cinco páginas diferentes.

O conjunto foi bem favorável ao governo federal porque ressaltou os possíveis
benefícios das medidas e também porque a manchete e um dos textos apontaram um valor, o
juro real, que foi calculado com base numa previsão de inflação em 12 meses e que também
não era novidade desde o último boletim Focus. Além disso, os textos trouxeram críticas aos
bancos, reproduzindo discursos da presidente Dilma Rousseff ou mesmo críticas diretas do
jornal.

A cobertura iniciou com um texto de uma das principais jornalistas do Valor, Claudia
Safatle, na página A2, local em que ela é colunista. A diretora adjunta de redação deu o título
para seu texto de “Tempos difíceis para os bancos”, no qual faz ataques pesados aos grandes
bancos brasileiros. Ela cita que os bancos, desde os “primórdios da atividade financeira” no
mundo são mal vistos. Faz isso para ligar com a atual “cruzada” que a presidente Dilma faz
contra os bancos ao lembrar e reproduzir trechos dos discursos da presidente no
pronunciamento em rádio e TV no 1º de Maio e na posse do novo ministro do Trabalho,
Brizola Neto. Dilma vem reclamando que os bancos não podem cobrar mais juros altos porque
a Selic está em queda, a economia está estável e a inadimplência não é alta.

O texto enumera as razões para as mudanças das regras da caderneta de poupança ou
sua antecipação: a piora externa nas últimas semanas, a demora da economia brasileira em
mostrar recuperação e a consequente brecha para novos cortes da Selic. Também é citado que
a presidente Dilma vem criticando as margens cobradas pelo sistema bancários – os spreads,
calculados pela diferença entre as taxas de captação e as de aplicação dos bancos.

Por fim os argumentos contrários aos bancos brasileiros são encerrados com a
afirmação de que “há um oligopólio no setor”. É citado que os cinco maiores bancos do país
(BB, Caixa, Bradesco, Itaú e Santander) têm 76% dos depósitos. Apenas no último parágrafo
são enumeradas reivindicações do setor bancário para o governo com o objetivo de derrubar
os juros: alta carga tributária, elevados compulsórios, além de uma série de medidas que
melhorariam as garantias dos financiamentos. Mas o texto diz na última frase que as
demandas devem ser respondidas “se elas forem procedentes”.

Os próximos textos estão na capa do caderno de Finanças. O texto principal tem o
título de “Governo muda remuneração da poupança e tira ‘trava’ da Selic”. Ao explicar as

mudanças, o texto diz que a remuneração da caderneta de poupança tem um “gatilho”:
sempre que a taxa básica de juros (Selic) for igual ou menor que 8,5% ao ano, os novos
depósitos da poupança serão corrigidos por 70% da Selic, que hoje está em 9% ano ano. As
aplicações já existentes permanecem com a regra atual: juros fixos de 0,5% ao mês (6,17% ao
ano) mais a variação da TR (Taxa de Referência). A isenção de Imposto de Renda permanecerá.

O texto afirma ainda que “a regra de remuneração da poupança deixa de ser uma
trava para a queda da taxa de juros no país” e que os 26 empresários que estiveram com a
presidente antes da divulgação das medidas “aplaudiram a iniciativa do governo de reduzir
os juros, pressionar os bancos para reduzirem os spreads e pediram que a ‘guerra’ se estenda
para o alongamento do crédito”.

No pé da página há reproduções de uma nota divulgada pelo presidente do Banco
Central, Alexandre Tombini, no texto “Para Tombini, medida se adapta ao novo cenário”. É
ressaltado que Tombini afirmou que a intenção das medidas é “remover resquícios herdados
do período de inflação alta”. Segue outra reprodução da nota: “Ao tempo que preserva
integralmente os depósitos já feitos, a medida adapta a caderneta de poupança ao novo
cenário brasileiro e com isso consolida as bases para o crescimento econômico sustentável”.
Ele também destacou que as mudanças não afetarão a popularidade da caderneta de
poupança.

Em outra página continua a cobertura no texto “Selic perde ‘piso’ com nova
poupança”. É citado que o mercado de juros futuros nos dias anteriores à divulgação já vinha
sinalizando que esperava as mudanças – os contratos sugerem taxa básica entre 8% e 8,25%.

E só nesse texto aparece, sem destaque, a menção da taxa real de 2,45% mostrada
na manchete geral: “Considerando-se a inflação projetada em 12 meses do último Focus, de
5,53%, o país tem uma taxa de juros real de 2,45%, nova mínima histórica”. Desse modo, ao
que parece, esse dado só foi pinçado para deixar mais forte a manchete principal, mas não é
novo nem um fato consolidado, é uma previsão.

Prosseguindo, em outra página há o texto “Banco teme descasamento entre caderneta
e crédito”. É o mais analítico da cobertura e avalia o impacto das medidas no financiamento
imobiliário. É citado que a adoção de uma taxa variável para os financiamentos à habitação já
se apresenta no setor imobiliário, mesmo com o ministro da Fazenda negando qualquer
mudança na forma como são feitos os financiamentos.

A explicação é que quando a Selic chegar a 8,5% ao ano e a TR zerar automaticamente,
incidirá sobre os contratos de crédito imobiliário somente o juro previamente pactuado. É
especulado que caso os contratos de financiamentos não sejam alterados “os bancos
mantenham uma ‘gordura’ na taxa cobrada dos clientes, para absorver possíveis choques no
custo de funding”. Ou seja, um descasamento entre passivo e ativo.

Outro cenário suposto é uma eventual perda de atratividade da poupança. Mas seus
efeitos são minimizados porque o compulsório de 30% sobre os depósitos em poupança
recolhido pelo Banco Central poderia servir como um “colchão” numa migração brusca de
recursos.

A perspectiva final não é boa para o financiamento imobiliário, tanto para os
mutuários como para os bancos: “Na avaliação de analistas de mercado e até de técnicos do
governo, a oscilação constante da remuneração embute "risco adicional" aos contratos de até
30 anos, dificultando o repasse integral de uma redução dos juros. Os bancos temem uma
elevação da taxa básica de juro no longo prazo e, com isso, ter uma redução de seus ganhos.
Portanto, a nova rentabilidade da caderneta de poupança poderá limitar uma queda mais
brusca nas taxas de juros praticadas nos financiamentos imobiliários”.

O próximo texto trata do contexto político das mudanças na caderneta de
poupança, "Governo conta com uma rápida votação da MP". A Medida Provisória das
mudanças precisa passar pelo Congresso, pois sua validade termina em setembro. O governo
tem medo que o processo eleitoral e a CPI de Carlinhos Cachoeira atrapalhem a votação.

Mas o texto conta que no dia do anúncio das novas regras os 15 partidos aliados que
participaram da reunião com a presidente foram unânimes em manifestar apoio. São
reproduzidas falas do líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), que elogiaram
muito Dilma Rousseff: “O governo sabe muito bem o que fazer. A presidente deu segurança
grande. Ela estava muito determinada, convencida e convincente".

Apenas um político da oposição foi ouvido, no último parágrafo, o líder do PSDB na
Câmara, Bruno Araújo (PE): "Para o governo, é mais fácil mexer no dinheiro do cidadão em vez
de cortar na própria carne e diminuir os elevados impostos".

Em outra página, mais um texto técnico, “Pressão sobre fundos ‘caros’ continua”. Ele
fala sobre a disputa entre fundos de investimento e poupança pela melhor rentabilidade. Com
a redução da Selic praticada nos últimos meses muitos fundos de renda fixa já perdiam para a
caderneta de poupança. Segundo o texto, as mudanças nas regras da poupança
apenas “aliviam marginalmente a situação dos fundos de investimento que cobram altas taxas
de administração”.

Segundo levantamento do economista Marcelo d’Agosto, do blog O Consultor
Financeiro do portal Valor, cerca de 40% dos fundos DI e de renda fixa distribuídos no varejo
vão continuar perdendo da poupança. Com o juro de hoje – 9% ao ano – praticamente metade
dessas carteiras rendem menos do que a caderneta.

O texto cita uma opinião em off de um “executivo responsável por uma das maiores
gestoras do país”, o qual afirma que as mudanças na caderneta de poupança tiveram um
caráter preventivo para evitar uma fuga de recursos dos fundos de investimento de tal forma
que comprometesse a gestão da dívida pública. Isso porque boa parte dos vencimentos de
títulos públicos são rolados via Letras Financeiras do Tesouro (LTF), papéis indexados à Selic
que estão nas carteiras dos fundos de curto prazo, DIs e de renda fixa. Como dito, para o Valor
Data, as medidas do governo não vão salvar todos os fundos: “fundos com taxa de
administração ao redor de 1,5% vão perder na ‘nova’ poupança em qualquer prazo de
aplicação se a Selic cair a 8,5% ao ano”.

Também é dito que o governo federal, após a campanha para reduzir os spreads na
concessão de crédito, vai tentar “forçar uma queda das taxas de administração”. Os meios

para isso são as ofensivas dos bancos públicos, com a Caixa Econômica Federal e o Banco do
Brasil reduzindo suas taxas para tentar forçar uma competição com os bancos privados.

Segundo comentário do economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa,
todo esse cenário pode trazer também uma mudança na indústria de fundos, fazendo com que
boa parte dos recursos que estão hoje em DIs migrem para investimentos de maior risco,
como multimercados, fundos de crédito privado e ações.

Finalmente, o último texto é de análise, “Urnas darão o termômetro da cruzada contra
os juros altos”. Raymundo Costa afirma que as mudanças na caderneta de poupança
desagradam e causam apreensão “sobretudo por ser decidida à moda antiga, sem discussão
prévia no Congresso”.

O jornalista também usa o espaço para contrabalancear a cobertura e fazer uma
pequena defesa dos bancos e até lembra o temido Plano Collor e seu confisco de contas
de poupança: “A exemplo do congelamento dos depósitos, no Plano Collor, o anúncio da
mudança de regra no rendimento da caderneta de poupança também poderia ser feito de
outra maneira. Do jeito que foi, abriu uma demanda com forte viés ideológico em relação
aos bancos. Em ano eleitoral, como é 2012, um político típico não joga trabalhador contra
banqueiro. Mas a presidente brasileira não é o que se pode chamar de um político típico”.

É o texto com as críticas mais duras ao governo federal: “Trata-se tão somente de
uma questão econômica que precisa ser muito bem explicada à população, que tem razões de
sobra para desconfiar quando o governo resolve estabelecer novas regras para o seu dinheiro.
Gato escaldado tem medo de água fria: sempre existe a possibilidade de perda”.

A “cruzada contra os juros altos” é classificada como uma aposta da presidente Dilma
Rousseff para ter sua marca nas eleições de 2014. E nomeada como uma “aposta de risco”.

Comentário

Os textos de maior destaque na cobertura das mudanças na caderneta de poupança
foram mais favoráveis ao governo federal, tanto por criticar os bancos como por trazer mais
espaço para políticos da base governista, além do dado não novo e estimado de juro real de
2,45%. As medidas poderiam ter sido mais criticadas.

A cobertura também poderia ter trazido uma análise sobre o funcionamento das novas
regras e sua eficácia. Por exemplo, o jornalista Luís Nassif em seu site apontou a necessidade
de regras que estimulassem o aumento da liquidez da poupança: “Esperava-se que o
Ministério da Fazenda sofisticasse um pouco mais nas regras da poupança. No mercado
financeiro, há alguns princípios básicos para as aplicações, em torno do trinômio segurança,
rentabilidade e liquidez. Se uma aplicação tem liquidez (isto é, pode ser sacada em intervalos
curtos) e segurança, não precisa ter rentabilidade elevada. Se tem rentabilidade, pode abrir
mão da liquidez. Se quiser rentabilidade e liquidez, abre-se mão da segurança. Como a
poupança é um investimento de alta liquidez (pode ser sacada a cada mês ou no meio do mês,
perdendo apenas a remuneração mensal), servindo de servindo de funding para

financiamentos de longo prazo, teria sido mais razoável estimular o fator liquidez. Isto é,
oferecer rentabilidade maior para aplicações de prazo mais largo. Seguir-se-ia a lógica
financeira e se estimularia a permanência maior dos depósitos, transformando-se,
efetivamente, em uma aplicação de longo prazo.”

Contudo, vale lembrar que os textos técnicos na cobertura do Valor Econômico sobre
o financiamento imobiliário e sobre os rendimentos de fundos foram bem analíticos e de boa
qualidade.