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terça-feira, 17 de julho de 2012

Ortodoxos X Heteredoxos


“Comparação de textos e ideias de dois economistas de linhas pensamentos diferentes”


INTRODUÇÃO
Este presente trabalho compara dois textos de economistas brasileiros sobre a crise na indústria nacional. Os textos escolhidos foram publicados no jornal “Valor Econômico”: “Os desafios da (re)industrialização” (3 de abril de 2012), de Luiz Gonzaga Belluzzo, e “O debate sobre a crise na indústria” (19 de março de 2012), de Luiz Carlos Mendonça de Barros.
Os dois profissionais seguem linhas de pensamento diferentes e este trabalho vai mostrar como essas diferenças aparecem nos textos analisados. Uma das grandes classificações econômicas é a ortodoxia, ou “mainstream economics”, que se caracteriza por uma abordagem das expectativas racionais da macroeconomia e se desenvolveu a partir da economia neoclássica em fins do século XIX, caracterizada principalmente por determinar preços, produção e distribuição resultantes da interação da oferta e demanda dos mercados. A ortodoxia é comumente ligada ao Consenso de Washington, ao monetarismo e à escola de Chicago. Seus adeptos hoje são mais conhecidos como neoclássicos e neokeynesianos.
 Já a heteredoxia não concorda com as expectativas racionais da macroeconomia e considera mais importante os conceitos de instituições, história e estrutura social. Todos os tipos de socialismo são considerados heterodoxos, mas nem todas as escolas heterodoxas são socialistas. Os heterodoxos aceitam a intervenção do Estado, enquanto que os ortodoxos acreditam em maior número no livre equilíbrio entre oferta e demanda. Os seguidores mais comuns da heteredoxia hoje são os marxistas e pós-keynesianos.

PERFIS
Luiz Gonzaga Belluzzo é um economista heteredoxo. É ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (governo Sarney), professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e tem formações em Direito (USP), Ciências Sociais (USP), pós-graduação em desenvolvimento econômico, promovido pela CEPAL/ILPES, e doutorado em economia pela Unicamp. Em 2001, foi incluído no Biographical Dictionary of Dissenting Economists entre os 100 maiores economistas heterodoxos do século XX.
Luiz Carlos Mendonça de Barros é um economista ortodoxo. É graduado pela USP em engenharia de produção e doutor em economia pela Unicamp. É ex-presidente do BNDES (novembro de 1995 a abril de 1998) e ex-ministro das Comunicações (abril de 1998 a novembro de 1998) no governo Fernando Henrique Cardoso. É diretor-estrategista da Quest Investimentos.

DESCRIÇÃO E ANÁLISE
è Texto de Luiz Gonzaga Belluzzo
As idéias expostas por Belluzzo fazem uma grande crítica aos adeptos da não intervenção do Estado na economia e também aos efeitos da liberalização. Já no primeiro parágrafo ele afirma que as “políticas industriais e de fomento coordenadas pelo Estado foram lançadas no rol dos pecados sem remissão” nos anos 1980 e cita dois políticos extremamente criticados pelos heteredoxos como defensores dessa postura, o 40º presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, e a ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher.
No Brasil, o autor afirma que a crise da dívida externa favoreceu a adoção de políticas liberais, as quais criaram um “desconforto com o reconhecimento dos direitos sociais e econômicos consagrado na Constituição Cidadã de 1988”. E também aponta que o Estado estava “financeiramente prostado” com uma crise fiscal e monetária e por causa dos programas impostos pelo FMI.
Prosseguindo no tempo, Belluzzo fala do receituário implantado pelos “reformistas liberais” após a “bem-sucedida estabilização de 1994”, como abertura comercial, privatizações e liberalização cambial. Para o autor, isso destruiu o “setor produtivo estatal”, área que seria muito necessária num “país periférico e de industrialização tardia”. Ele escreve também que as privatizações causaram a diminuição do investimento em infraestrutura.
Ao falar do presente o autor aponta que os problemas das importações predatórias, do “real forte” e da estagnação de investimentos “só serão reparadas com o aumento dos gastos na formação da nova capacidade, sobretudo setores novos e intensivos em tecnologia”. Belluzzo chega a citar que será necessário o “animal spirits” dos empresários, famosa expressão usada por John Maynard Keynes para falar das emoções que influenciam o comportamento humano. O autor também defende uma centralização do capital em empresas com escala, elevação dos gastos do Estado, estímulo a criação de bancos com crédito de longo prazo e a constituição de um fundo soberano com os recursos do pré-sal para criar poupança de longuíssimo prazo.

è Texto de Luiz Carlos Mendonça de Barros
O texto faz uma crítica às “medidas pontuais” adotadas pelo governo federal para tentar sanar a crise na indústria brasileira, como a aceleração dos cortes de juros e ações para tentar brecar a entrada de capitais financeiros. Barros afirma que “a presidente ameaçou o mercado com uma medida provisória a cada dia para estancar a especulação cambial”.
Para o autor as causas da crise da indústria são outras. Ele cita motivos estruturais ligados a intervenção do Estado, como a “absurda carga de tributos – federais e estaduais – que onera o custo da energia elétrica para a indústria”. Barros sustenta também que o Brasil tem hoje uma economia de mercado organizada que responde naturalmente a mudanças estruturais causadas por novas condições internas e externas (maior competição externa, por exemplo), desse modo ele rechaça a “tentativa artificial” do governo de praticar intervenções na economia, pois podem “gerar tensões e, no longo prazo, distorções perigosas em vários mercados”.
Dois setores nacionais com eficiência e produtividade estariam sendo prejudicados pela intervenção do governo, a agricultura e o mineral, segundo Barros. Ele descreve em detalhes o problema da agricultura: para se livrar da “dependência” do crédito do Banco do Brasil o setor passou a usar uma modalidade de crédito externa chamada de antecipação de pagamentos por conta das exportações futuras, possível graças à confiança na agricultura brasileira e no real, mas esse mecanismo foi prejudicado pela “cruzada contra a valorização especulativa do real” com a imposição de um IOF de 6% na entrada destes recursos. Desse modo, os produtores brasileiros estariam perdendo a oportunidade de desfrutar dos juros baixos dos mercados internacionais de crédito.

è Análise
Há uma dicotomia básica nos textos entre o Estado intervir ou não na economia para ajudar a indústria nacional. Belluzzo defende que a liberalização retirou muitos incentivos e investimentos para a indústria. Já Barros afirma que os problemas da indústria são estruturais, justamente pela mão do Estado, e que, além disso, as medidas do governo causam desequilíbrios no mercado.
Nessas ideias aparecem argumentos históricos da heteredoxia e ortodoxia. Por um lado há a defesa de um Estado orientador e organizador da economia e por outro um Estado com participação discreta, que deixa os agentes do mercado equilibrarem as forças da economia.
E esse tema da desindustrialização, dependendo da visão, comporta tanto a explicação de motivo a competição externa e o real valorizado como o chamado Custo Brasil (burocracia, carga tributária, falta de infraestrutura etc.). Os dois lados têm bons argumentos, mas deve-se tomar cuidado com os usos políticos dessas visões na cobertura jornalística e procurar sempre dar espaço às diferentes visões.

LOCALIZAÇÃO DOS ARTIGOS

domingo, 29 de janeiro de 2012

Direto de Bruxelas: Dia decisivo

Em Bruxelas na Comissão Europeia (http://ec.europa.eu/), o órgão executivo da UE, a diretora-geral de comunicação do órgão, a portuguesa Margarida Marques, nos falou da espera apreensiva pelo dia 30 de janeiro. Nesse dia parte dos países europeus devem celebrar um acordo internacional para maior coordenação fiscal.

Inicialmente as discussões no ano passado pretendiam incluir todos os 27 países da União Europeia no pacto fiscal, mas não houve consenso total e o Reino Unido deve ficar de fora, alegando que um pacto fiscal traria mais desemprego. Na Finlândia também existem vozes contrárias a um acordo -  o partido Verdadeiros Finlandeses, anti-imigrantes de inspiração neonazista, teve um forte resultado eleitoral em abril passado e já manifestou publicamente que gostaria de abandonar as relações com a União Europeia se chegar ao poder.

Como se sabe há grande diferença entre os países da Europa em relação do déficit público em comparação com o PIB. Por exemplo: Alemanha 3%; Itália 5,3%; França 7,5%; Portugal 9,3%; Reino Unido 11,4%; Espanha 11,1%; e Grécia 15,4%.

Margarida disse que os mercados têm atacado com mais pressa a União Europeia do que a velocidade das ações implementadas para diminuir a crise. O acordo do dia 30, nas palavras dela, portanto deve trazer "mecanismos para o euro funcionar melhor de acordo com o mercado".

A homogeneização fiscal na Europa sempre foi um tabu e causou briga entre os países, já que nem todos tem bala na agulha ou lideranças políticas menos populistas para cortar gastos. O que está sendo sugerido é uma taxa máxima de déficit público em relação ao PIB de 3%, mas progressiva de acordo com cada país.

Outra importante mudança é que os países passariam a apresentar seus Orçamentos do ano que vem no primeiro semestre do ano corrente, desse modo a Comissão Europeia poderia analisar os números e sugerir mudanças. Também estão previstas sanções no pacto fiscal, ou seja, os países que gastarem demais teriam algumas ajudas canceladas, como a dos fundos estruturais.

Sobre a criítica do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, de que o pacto fiscal trará desemprego, Margarida reconheceu esse risco e disse que isso representa um grande desafio. "Construir políticas sãs e criar empregos ao mesmo tempo é nosso grande desafio para os próximos anos", disse.

Nessa viagem vimos vários europeus admitirem que esperam cerca de dez de baixo crescimento ou mesmo recessão, tudo em nome de um planejamento para arrumar as finanças do continente e evitar a inflação. Por exemplo, em Mannheim na Alemanha no ZEW (Center for European Economic Research - http://www.zew.de/), um dos grandes think tank de economia do continente, o pesquisador Friedrich Heinemann falou abertamente que a "recessão é parte do ajuste".

Essa obsessão também tem uma explicação histórica: houve um momento na Europa em que o descontrole da hiperinflação trouxe consequências desastrosas, na Alemanha em 1923, quando Adolf Hitler começou a surgir e depois quase destruiu todo o continente. Esse fantasma ainda está na mente dos europeus e parece também guiar a condução da atual política econômica.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Direto de Luxemburgo: O escândalo da estatística

A crise econômica na Europa também colocou em xeque os mecanismos de controle contábeis da Europa. Por aqui os europeus que visitamos admitiram a fraude estatística da Grécia, fato que desastabilizou todo o mercado de venda de títulos públicos da zona do euro.

Estivemos em Luxemburgo no Eurostat (http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/eurostat/home/), o equivalente na União Europeia ao nosso IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mas com algumas grandes diferenças. O inglês Tim Allen (não é o comediante, acredite), que ocupa o cargo de porta-voz do órgão, nos explicou que o Eurostat trabalha processando os dados que são coletados pelos institutos nacionais de pesquisas de cada um dos 27 países da União Europeia. Todo mês são divulgados números muito importantes como de inflação, PIB e do temido déficit público.

Tudo lindo, mas na prática deu errado. Na Grécia o Partido Conservador Nova Democracia, de Kostas Karamanlis (2004-2009), prosseguiu e agravou a gastança do Partido Socialista que o precedeu no comando do país. Lembre que a Grécia sediou as Olimpíadas de 2004 e precisou despender muito dinheiro para isso.

Em outubro de 2009, época de eclosão da crise do Lehman Brothers, o controle do país voltou para o Partido Socialista, agora com o primeiro-ministro George Papandreou. Foi aí que veio a público que o verdadeiro déficit público do país, de 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

Mas como um país que tem descontrole de gastos foi aceito em 2001 na zona do euro e permanece até hoje? Vale lembrar que o critério para entrar é ter déficit público anual máximo apenas de 3% do PIB.

Sobre essas diferenças tão escandalosas Tim Allen evitou falar em fraude. Para o Eurostat "não houve má fé" no caso. Hoje a opinião do órgão europeu é que o instituto nacional de pesquisas da Grécia na época do estouro de gastos públicos era sem organização para coletar dados, além disso, não teria havido tempo suficiente para a realização das pesquisas.

No entanto, outros órgãos da União Europeia que visitamos não foram tão condencentes com a Grécia. Na mesma Luxemburgo, na Corte Europeia de Auditores, o auditor Juss Bright criticou o fato de até hoje o escândalo estatístico da Grécia não ter sido punido e questionou a independência dos órgãos de estatística europeus.

Em Bruxelas, na Comissão Europeia, a portuguesa Margarida Marques, diretora-geral de comunicação do órgão, chegou afirmar que a "Grécia mentiu deliberadamente". Ela comentou que isso foi muito grave porque no desenho da União Europeia e da zona do euro há uma interdependência dos países, por exemplo, há muitos bancos europeus credores da Grécia e os grandes países exportadores da Europa como a Alemanha têm receio de que sua balança comercial piore com o esfriamento do continente.

Segundo Tim Allen, a situação da Grécia trouxe também mudanças. O Eurostat enviou representantes para aquele país e também passou a ter poder de intervir em institutos nacionais de pesquisa quando necessário.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Direto de Frankfurt: Dívida, juros e Alemanha

Hallo!
É o que todos dizem: os alemães se organizam muito bem. Ontem pude ver isso de perto numa instituição que está no olho da crise da dívida europeia.
Escrevo rapidamente sobre o dia 16 de janeiro, a visita em Frankfurt na Finance Agency (http://www.deutsche-finanzagentur.de/startseite/), um órgão privado contratado pela República Federal da Alemanha para gerir os juros dos títulos públicos alemães.
Nosso painel foi com Thomas Weinberg, o chief trader da Finance Agency. Ele é uma das pessoas que tem a imensa responsabilidade de lidar com a dívida pública da Alemanha, que é de 74,8% do PIB, ou cerca de um trilhão de euros.
A dívida dos países europeus hoje faz seus presidentes e chanceleres arrancarem os cabelos com tanta preocupação. Mesmo a Alemanha, economia mais forte da Europa e terceiro maior exportador do mundo, sofre com sua dívida alta.
Os governos de quase todos os países do mundo se financiam vendendo títulos públicos de suas dívidas, normalmente de longo prazo, 10, 20 anos. Se há muitos investidores interessados nesses títulos não há problema, a dívida é administrada e os governos nem precisam oferecer taxas de juros altas.
Mas como o endividamento da Europa está enorme países periféricos como Grécia e Portugal e até economias maiores como a Itália precisaram subir seus juros, o que no limite pode tornar as dívidas impagáveis e trazer o temido calote.
A Alemanha vem sendo bem aceita pelos investidores e mantém seu triple AAA na avaliação de risco, diferente da França que foi recentemente rebaixada. Mas o montante de dinheiro que a Alemanha precisa arrecadar é enorme.  Thomas Weinberg contou que apenas na quarta-feira, dia 18, a Alemanha precisaria levantar 5 bilhões de euros com a venda de títulos.
A Finance Agency tem o papel de negociar a venda dos títulos públicos alemães com os bancos e tentar baixar os juros. O que o governo quer é vender o máximo de títulos pelo maior valor possível. A venda é feita através de leilões.
Em novembro de 2011 a Alemanha já enfrentou problemas com a venda de títulos: a demanda ficou abaixo da oferta. Esses títulos ofereciam aos seus compradores uma remuneração de 1,98% ao ano.
Os governos culpam uma contaminação na zona do euro - as incertezas dos outros países sobre sua capacidade de pagamento acabam afetando o humor do investidor, que passa a desconfiar que as economias grandes vão ter sérios problemas num futuro próximo para honrar seus gastos.
E há razões para esse mau humor: a Grécia deve 138% de seu PIB e a Itália 119%. Segundo Weinberg, no final de março a Europa vai viver de novo fortes emoções quando vencerá um grande lote dívidas dos gregos. O país espera uma ajuda de 130 bilhões de euros do FMI para conseguir respirar.
A opinião de muitos economistas é que essa situação só se resolverá em conjunto, não adianta cada país vender individualmente seus títulos públicos. A solução seria a criação de eurobonds pelo Banco Central Europeu, assim esses títulos seriam garantidos por toda a União Europeia, que em cojunto soma um PIB de mais de 14 trilhões de euros.
Mas aí o chucrute alemão azeda. Weinberg foi taxativo: a criação de eurobonds hoje é impossível. A Alemanha como maior economia do continente ficaria com o maior prejuízo para pagar os eurobonds aos investidores. Para Weinberg os eurobonds só seriam viáveis se os países além da união monetária também tivessem união fiscal, enxugando em conjunto seus gastos públicos e melhorando sua arrecadação de impostos.
O fator político torna isso um monumental desafio. Os 17 países da zona do euro e os 27 da União Europeia deveriam chegar a um acordo e tomar decisões impopulares para um ganho só de longo prazo. Weinberg também citou o fator complicador das eleições na França neste ano - com Nicolas Sarkozy mal nas pesquisas ninguém sabe o que pode acontecer e o que novo governo vai propor.
Como bom alemão Weinberg só vê resolução definitiva desse problema no longo prazo, em décadas. Mas ele deixou a frieza de lado e disse no final que só a solidariedade dos países vai tirar o continente da crise, ou seja, todos terão que ceder. O cidadão de cada país terá que se sentir também europeu do que apenas italiano, grego, alemão, belga, inglês, francês, português, para aceitar e ajudar nas mudanças.
Auf Wiedersehen! 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Sair do Brasil para trabalhar já não é garantia de grana no bolso



O brasileiro desanima quando compara seu salário com os ganhos de trabalhadores de países desenvolvidos. Isso faz com que muita gente deixe o país e busque emprego no exterior. Mas numa situação de crise econômica nos EUA e na Europa, principalmente, ainda vale a pena se aventurar?

Hoje, o Brasil tem baixo índice de desemprego e estimativa de crescer 3,29% este ano. Já os países ricos estão com desemprego em alta e crescimento estagnado, em alguns casos até com situação de recessão. Esses são motivos que levam especialistas de Recursos Humanos a afirmarem que, hoje, as melhores oportunidades estão aqui. “O Brasil vive uma situação inversa, na qual brasileiros antes expatriados estão retornando e buscando emprego no país. E os estrangeiros têm visto no crescimento da economia brasileira uma oportunidade ante as crises na Europa enos EUA”, comenta o diretor geral no Brasil da multinacional de RH Manpower, Riccardo Barberis.

Pesquisa deste ano da Manpower mostra que, no Brasil, quase seis em cada dez empregadores têm dificuldade de preencher as vagas.

E quando trabalhar no exterior é um sonho ou necessidade profissional? Rachel Sciré, especialista em RH do ClickCarreira, portal focado no desenvolvimento profissional, lembra que há alternativas. “Algumas empresas,como a KPMG, SAP, Andrade Gutierrez e Rabobank, oferecem programas de trainee com vivência internacional, o que pode ser uma boa alternativa para ganhar experiência profissional fora do Brasil, sem correr os riscos de ser afetado pelo desemprego”, cita.

Ela destaca que o mercado de trabalho sempre vê a atuação internacional com bons olhos, mas a decisão deve ser bem calculada. “Quem tiver interesse em sair do país deve avaliar como a mudança poderá contribuir para a carreira, levando em conta a trajetória profissional e os planos para o futuro”, analisa.

A opção de trabalhar fora pode também incluir fatores como juntar dinheiro, aprender uma
língua e adquirir experiência. Mas os contras devem ser levados em conta. É importante antes
conhecer a situação do país que está na mira e se o emprego almejado tem estabilidade.



EUA prevê crescer 1,7% neste ano; o conjunto da Europa, abaixo de 1%

Censo: os 10% com os maiores salários no Brasil ganham 44,5% do total da renda



Endividamento em massa causou grave situação
A atual crise dos EUA e da Europa tem razões antigas. O Tratado de Maastricht, também conhecido como Tratado da União Europeia, de 1992, criou a integração econômica do continente. Ficava estabelecido que nenhum país poderia ter dívida interna maior que 60% do PIB (Produto Interno Bruto).

Só que isso não ocorreu, os governos gastaram muito mais do que arrecadavam, principalmente os países periféricos como Grécia, Irlanda, Portugal e Itália.

A criação do euro, em 1999, estabeleceu apenas a união monetária. Não houve união fiscal e política dos países. Mas, como as economias e bancos estão interligados, quando os países pequenos começaram a ter problemas para honrar suas dívidas, o continente inteiro sentiu o golpe.

No caso dos EUA, a grave crise de 2008 também veio de dívidas. Milhares de pessoas sem condições de pagamento tomaram crédito e bancos passaram a vender o direito de pagamento dessas dívidas. Isso foi possível porque o país tem poucas leis de regulamentação financeira, desde o governo de Ronald Reagan (1981-1989).

Atualmente a crise da dívida é mais grave na Europa, com países perto de realizarem calotes. A chanceler alemã, Angela Merkel, à frente do país mais rico da Europa, tenta conduzir reformas e ajudas aos vizinhos, mas o continente é extremamente complexo. São 17 parlamentos brigando por seus interesses.

A expectativa é que a Europa e os EUA continuem com baixo crescimento econômico por vários anos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Parece mas não é: exportações sobem, porém, indústria sofre

Neste ano, as exportações do estado de São Paulo estão em alta de 17% até julho em relação ao mesmo período do ano passado, segundo os últimos dados do Ministério do Desenvolvimento. Mas a maior parte da indústria paulista não está feliz. A razão é que os US$ 32,4 bilhões exportados estão concentrados em commodities agrícolas, ou seja, matérias-primas como o açúcar.
 Em entrevista o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, explicou a situação. A exportação de itens manufaturados teve queda. “Na verdade, as exportações paulistas, por serem mais intensivas em manufaturas, foram as mais prejudicadas desde o período de crise internacional ocorrida entre 2008 e 2009. E mesmo agora, em 2011, o estado está exportando um valor ligeiramente inferior ao mesmo período de 2008, com 1,3% de queda”, aponta.
Como exemplo da queda acentuada das exportações de bens industrializados, ele cita os aviões, antes importante destaque da pauta, que agora perdem espaço ano após ano.
Outros setores, como calçadista, têxtil e de autopeças, estão deixando de vender no exterior e aumentando a produção, quando conseguem, voltada ao mercado interno, que enfrenta forte concorrência de importados com a valorização do real. Ontem o dólar fechou a R$ 1,650 e há um ano estava R$ 1,725. No total, as importações já superaram as exportações no estado. 

Soluções/  Skaf critica como entraves para a exportação a carga tributária elevada, câmbio valorizado, alto custo do capital, guerra fiscal nos portos e ainda ausência de um mecanismo eficaz para devolução dos créditos tributários dos exportadores. “É necessário enfrentar essas questões, além de acelerar projetos em logística que reduzam o custo das empresas”, afirma.

Importações paulistas subiram 26% no período e somam US$ 46,6 bilhões


Governo estuda como ampliar medidas de defesa
No dia 2 de agosto, o governo federal apresentou o Plano Brasil Maior, que estabeleceu uma política industrial, tecnológica, de serviços e de comércio exterior para o período de 2011 a 2014.

O impacto final nas contas públicas com desonerações será de R$ 24,5 bilhões em 2011 e 2012 com a nova política industrial. Os quatro setores beneficiados pela desoneração da folha de pagamento na nova política industrial, indústrias calçadista, têxtil e de móveis, além de software, respondem por aproximadamente 10% da folha agregada da indústria de transformação, segundo o Ministério do Desenvolvimento.

Entidades como a Fiesp e a CNI (Confederação Nacional da Indústria) elogiaram as medidas do plano, mas pediram mais avanços e ampliação para mais setores.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o Ministério do Desenvolvimento afirmou que a desoneração da folha de pagamento não deve ser estendida a outros setores neste ano, mas que o governo está trabalhando também em outras frentes.

Fazendo coro ao que já divulgou o ministro Guido Mantega (Fazenda), o governo quer implementar uma política mais forte de superavit primários (economia de gastos para pagar juros da dívida pública) que deve permitir mais investimentos e ampliação da desoneração fiscal.  A meta é elevar o investimento dos atuais 19% para 22,4% do PIB (Produto Interno Bruto)  até 2014.

Crise oferece preocupação
O perigo da crise econômica – que atinge os países ricos – se alastrar pelo mundo também pode  prejudicar as exportações. O resultado do PIB (Produto Interno Bruto) do segundo trimestre deste ano reforça o quadro atual de preocupação para o setor industrial, alerta a CNI (Confederação Nacional da Indústria). O PIB industrial cresceu somente 0,2% no segundo trimestre deste ano, frente ao trimestre anterior. A indústria de transformação ficou estável no período, enquanto a construção civil expandiu-se apenas 0,5%.


 Como andam as exportações no estado


Valores em US$ - període de janeiro a julho

+ Bauru
2011 - 125.732.554 (alta de 13%)
2010 - 111.504.302

+ Itatiba
2011 - 77.979.796 (alta de 26,5%)
2010 - 61.603.224

+ Jaú
2011 - 10.349.431 (alta de 155%)
2010 - 4.055.772

+ Jundiaí
2011 - 290.387.258 (queda de -0,34%)
2010 - 291.397.851

+ Marília
2011 - 17.308.506 (queda de -6%)
2010 - 18.474.491

+ Santo André
2011 - 538.758.992  (alta de 55%)
2010 - 346.885.624

+ São Bernardo do Campo
2011 - 2.757.684.079 (alta de 29%)
2010 - 2.141.009.648

+ São Caetano do Sul
2011 - 490.525.568 (alta de 47%)
2010 - 333.932.972

+ Diadema
2011 - 128.055.035 (alta de 34%)
2010 - 95.242.336

+ Rio Preto
2011 - 7.005.146 (queda de -82%)
2010 - 38.778.941

+ São Paulo
2011 - 3.877.991.999 (alta de 7,6%)
2010 - 3.603.347.853

+ São José dos Campos
2011 - 2.580.962.996 (queda de 0,6%)
2010 - 2.596.644.921

+ Sorocaba
2011 - 903.213.766 (alta de 47%)
2010 - 612.631.891

+ Taubaté
2011 - 640.050.361 (queda de -2,35%)
2010 - 655.480.161

+ Estado de São Paulo
2011 - 32.439.486.466 (alta de 17%)
2010 - 27.825.594.814
Principais produtos neste ano
1 ACUCAR DE CANA,EM BRUTO   2.987.430.324
2 OUTS.ACUCARES DE CANA,BETERRABA,SACAROSE QUIM   1.552.217.590
3 OUTROS AVIOES/VEICULOS AEREOS,PESO>15000KG,VA   1.286.224.319
4 CARNES DESOSSADAS DE BOVINO,CONGELADAS   804.433.091
5 AUTOMOVEIS C/MOTOR EXPLOSAO,1500<CM3<=3000,AT   686.158.713



Fonte: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior

sábado, 20 de agosto de 2011

Anote aí: trabalho temporário vai crescer no Natal deste ano

O trabalho temporário é uma esperança de emprego todos  os anos para milhares de brasileiros. A data mais forte de contratação sempre é o Natal, mas neste ano existe o temor popular de que os efeitos de uma possível crise econômica nos EUA e na Europa cheguem ao Brasil.
Porém, o Natal de 2011 parece estar “salvo”. A Manpower, empresa multinacional de gestão de mão de obra terceirizada, a maior do ramo, afirma que continua recebendo vários pedidos para intermediar  a contratação de trabalhadores para o comércio e a indústria.
A empresa  estima que o consumo durante o último trimestre do ano deve crescer cerca de 6%, apesar  de ser uma taxa menor que os 15% registrados no mesmo período do ano passado. “O Brasil vive hoje um crescimento recorde, mesmo à sombra das instabilidades internacionais”, diz Riccardo Barberis, executivo da Manpower.
A indústria paulista também afirma esperar crescimento, mesmo que menor. Segundo dados apresentados esta semana pela  Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo ), o setor deve registrar 2,4% de crescimento no período, contra os 4,7% obtidos em 2010.
efetivações /A diretora de comunicação da Asserttem (Associação Brasileira das Empresas de Serviços Terceirizáveis e de Trabalho Temporário),  Jismália de Oliveira Alves, lembrou ontem que a crise financeira mundial de 2008 só atingiu o Brasil no ano seguinte, por isso espera que o trabalho temporário não seja afetado este ano também.
“Com certeza o Natal deste ano vai ter aumento de contratações. As empresas já compraram suas matérias-primas e já têm seu planejamento para o final de ano”, comenta.
De acordo com a Asserttem, em 2009 o  trabalho temporário foi afetado principalmente nas efetivações, ou seja, as empresas continuaram contratando, mas frearam as efetivações. Em 2008, esse índice foi de 28% e no ano seguinte, 25%.

Ministro descarta que crise vá afetar empregos
Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho,  foram criados 1,59 milhão de empregos com carteira assinada nos sete primeiros meses deste ano. Com isso, houve queda de 14% frente ao mesmo período do ano passado, quando foram abertas 1,85 milhão de vagas. No mês passado, o país registrou a criação de 140.563 empregos em julho, queda de 22,6% em relação a julho do ano passado.
Ao apresentar os números, ontem, o ministro  Carlos Lupi (Trabalho) afirmou que as férias de julho e a queda na produção agrícola no Sul e Sudeste prejudicaram a geração de vagas, além das medidas do governo para desacelerar a economia para combater a inflação. Mas ele praticamente descartou que a atual crise internacional atinja o mercado de trabalho brasileiro. 
“O pivô da crise é os EUA. O poder de consumo do americano está diminuindo. Eles têm que tomar algumas medidas para incentivar o consumo. É um comportamento completamente diferente da realidade brasileira”, disse o ministro.
Jovens se beneficiam
“Nosso setor [trabalho temporário] vem crescendo de 7% a 8% ao ano. Grande parte para jovens em situação de primeiro emprego”
 Jismália de Oliveira Alves
diretora da Asserttem


Trabalho temporário sem crise

Natal do ano passado
140 mil vagas temporárias no Brasil -> alta de 12% em relação ao Natal de 2009
42.434 no estado de São Paulo
Até julho deste ano
114,8 mil vagas temporárias -> alta de 10% em relação ao período de janeiro a julho do ano passado
Natal deste ano
Ainda não há estimativas exatas, mas a expectativa de empresas de RH e do setor de trabalho temporário é manter a alta nas contratações, mas com uma alta um pouco menor do que em 2010

+ Principais áreas com vagas para o Natal
Comércio (lojas de rua, os shoppings e os supermercados) -> profissionais mais procurados são vendedores e caixas
Indústria (segmentos de alimentos, bebidas, bens de consumo, vestuário, brinquedos, eletrônicos e papel) -> profissionais mais procurados são operadores de linhas de produção
+ Onde achar sua vaga
Fontes: Ipema, Asserttem e empresas de RH

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Agronegócio sobe; China deve manter ânimo brasileiro


Um dos principais motores da economia brasileira, o agronegócio, está com um grande desempenho nas exportações, mas também vive a incerteza da crise econômica que pode se alastrar pelo mundo.

Ontem, o Ministério da Agricultura revelou que o agronegócio alcançou  um novo recorde ao exportar, no acumulado dos últimos 12 meses, entre agosto do ano passado e julho deste ano, US$ 85,76 bilhões em produtos agropecuários. O resultado é 23,7% maior que o registrado nos 12meses anteriores, quando o valor comercializado para o exterior foi US$ 69,36 bilhões.

FATOR CHINA /O pesquisador do IEA (Instituto de Economia Agrícola) José Sidnei Gonçalves disse ontem que um impacto negativo da crise nas exportações agrícolas, se acontecer,deve apenas ocorrer no ano que vem, pois os contratos comerciais têm em média quatro meses.
“Mas a China é o principal comprador dos produtos do agronegócio brasileiro. Eles atravessam problemas com inflação atualmente, mas o país está se urbanizando e precisa comer. A tendência é as compras continuarem altas”, diz
.
Porém, um risco é a queda no preço das commodities agrícolas, que têm seu valor definido em negociações no mercado financeiro. Se a crise deixar os mercados pessimistas, de “mau humor”, aí o preço deve cair. No
começo da semana as principais commodities agrícolas já encerraram com perdas expressivas no mercado norte-americano, inclusive no açúcar.


Principais  compradores do Brasil são a China (14,8%) e os Países Baixos (7,4%)

Os três produtos líderes do 1º semestre são soja, carne e o complexo sucroalcooleiro


Ministério tem cenário similar a 2009
O Ministério da Agricultura informou que não considera que o agronegócio brasileiro será afetado pela crise dos países ricos. O secretário de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura,
Célio Porto, acredita que não haverá grande impacto nas exportações brasileiras. “A experiência de 2009 [ano da crise financeira mundial] mostra que o impacto pode ser maior nos preços e não nas quantidades
demandadas”, explica.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Juro do cheque é o maior dos últimos cinco anos no país


Alerta para quem está endividado ou pensa em contrair alguma. As taxas de juros voltaram a se elevar mês passado, de acordo com pesquisa divulgada ontem pela Anefac (Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).

O destaque negativo foi a taxa média do cheque especial, que passou de 8,10% ao mês para 8,27%, a maior
desde fevereiro de 2005. A razão apontada são as  medidas tomadas neste ano pelo Banco Central para reduzir a demanda e combater a inflação, como a inclusão ou aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) em várias operações de crédito.

Das seis linhas de crédito para pessoa física pesquisadas, apenas uma se manteve estável: o cartão de crédito rotativo, mas que já estava bem alta, 10,69%.

CRISE INCERTA /Segundo o vice-presidente da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, mantidas as condições atuais da economia, a expectativa é de que as taxas de juros voltem a ser elevadas nos próximos meses por conta dos efeitos das medidas já tomadas pelo governo.

Mas, caso a crise nos EUA e na Europa se agrave, com recessão nas principais economias do mundo, a tendência é o Banco Central reverter todas as medidas. “Se a crise desacelerar a nossa economia e com isso aumentar a inadimplência por conta de um desemprego maior, aí inevitavelmente os juros vão cair. Entretanto, dentro de um quadro destes a tendência é o governo tomar medidas para incentivar o consumo”, analisa.


Anefac recomenda organização
Para o consumidor conseguir viver nesse cenário de juros altos, a Anefac tem uma série de recomendações. O consumidor deve organizar a sua vida financeira elaborando um orçamento doméstico como forma de
definir quais são as suas reais necessidades e planejar todos os seus gastos considerando sempre apenas
sua renda disponível. Outra indicação é gastar menos do que tem de renda como forma de fazer uma reserva
financeira para eventuais gastos extras não previstos ou até para planejar a compra de algum bem no futuro. O cheque especial não é renda e deve ser utilizado por um período curto e emergencial.


Atenção para não ficar no vermelho

+ Taxa de juros ao mês em julho
Para consumidores
Comércio - 5,70%
Cartão de crédito - 10,69%
Cheque especial - 8,27%
CDC (bancos) - 2,37%
Empréstimo pessoal (bancos) - 4,67%
Empréstimo pessoal (financeiras) - 9,34%


+ Simulações
Uma pessoa que tenha uma dívida de R$ 100 todos os meses no cheque especial ao final do ano (12 meses)
Considerando uma dívida de R$ 100 não pagos após 12 meses este consumidor estaria devendo R$ 259,48

Uma dívida de R$ 100 no cartão de crédito ao final de um ano (12 anos)
Considerando uma dívida de R$ 100 não pagos após 12 meses este consumidor estaria devendo R$ 338,30


+ Pesquise a taxa de juros
Banco Central: http://www.bcb.gov.br/?TXJUROS


Fontes: Anefac e Banco Central


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Bolsa de Valores já tem saída de investidores

A BM&FBovespa registrou, em julho, queda no número de investidores na figura de  pessoa física no mercado de ações, para 598.223 contas. O número é 0,83% menor do que o registrado em junho, de 603.259 investidores. Em 12 meses, o melhor número foi em setembro do ano passado, com 630.895.
As Bolsas do mundo todo estão mal das pernas, isso explica a fuga do pequeno investidor, que perdeu dinheiro. Há um pessimismo em relação aos países europeus e aos EUA, que enfrentam graves problemas de dívida pública e desemprego.  No Brasil, a saída da  Bolsa ocorre também por causa dos juros altos e da inflação. E também receio de um tombo grande por parte dos inexperientes.

O que fazer? /Apesar dos maus resultados atualmente na Bolsa, o economista especialista em mercado de capitais internacional e professor da BBS (Business School), Ricardo Torres, não acha que seja a melhor solução “abandonar o barco”. “É um momento de queda no preço de ações, o investidor vai perder dinheiro se vendê-las”, afirma.
Se o investidor tiver reservas para suportar esse período de instabilidade, o ideal é deixar as ações paradas e até esperar um momento de piora para comprar novas ações. “O Ibovespa [termômetro de negócios da Bolsa] deve cair mais. Quando voltar para os 47 mil pontos é hora de comprar ações mais baratas. O grande truque da Bolsa é comprar em momentos certos”, orienta.  Ele prevê que a Bolsa deve melhorar em 2012.

Ibovespa fechou julho em - 5,74%. Maioria de investidores são estrangeiros (32,73%)

 Dívida pública dos EUA é  de US$  14,58 trilhões, valor que supera o PIB de 2010

Renda fixa comemora juros altos
O Brasil tem os maiores juros do planeta. O Banco Central voltou a elevar a taxa de juros no mês passado, desta vez para 12,5% ao ano. As aplicações em renda fixa, por esse motivo, estão mais atrativas. Os fundos de investimento registraram uma captação de R$ 45,8 bilhões no primeiro semestre, segundo dados da Anbima (Associação Nacional das Entidades do Mercado Financeiro). Mas vale lembrar  que os fundos cobram taxa de administração e podem ter Imposto de Renda.

domingo, 24 de julho de 2011

Análise do discurso - Trabalho Interno: crise econômica, moral e corrupção








INTRODUÇÃO


Este presente trabalho analisa o documentário Trabalho Interno (“Inside Job”, EUA, 2010). O tema é a crise financeira mundial de 2008-2009, destacando principalmente seus desdobramentos nos EUA e parcialmente na Islândia.


O filme faz uma análise técnica da crise, mostrando seus motivos econômicos, e também faz juízo de valor: para seus autores, o sistema financeiro dos EUA criou uma corrupção sistêmica naquele país. O setor financeiro é atacado tanto pelos prejuízos monetários que causou como também por agressões a valores morais que os autores defendem – ética profissional/acadêmica e luta contra as drogas e prostituição.






DESCRIÇÃO


+ Emissor: documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson


O diretor e roteirista é Charles Ferguson, 56 anos, fundador e presidente da Representational Pictures, Inc. Também dirigiu “No End In Sight: A ocupação americana do Iraque” (2007). É também cientista político, matemático e obteve um Ph.D. em ciências políticas pela MIT em 1989. Ferguson, em seguida, realizou uma pesquisa de pós-doutorado no MIT ao mesmo tempo deu consultoria para a Casa Branca, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA e para o Departamento de Defesa, e dos EUA e da Europa, além para várias empresas de alta tecnologia. De 1992-1994 Ferguson era um consultor independente, fornecendo consultoria estratégica para as gerências de empresas de tecnologia, incluindo Apple, Xerox, Motorola e Texas Instruments.


Em 1994, criou a Vermeer Technologies. Junto com Randy Forgaard, criou uma das primeiras ferramentas de desenvolvimento visual de web site, o FrontPage. No início de 1996, a Vermeer foi vendida por US$ 133 milhões para a Microsoft, que integrou o FrontPage no Office Microsoft.


Após isso, Ferguson se dedicou a carreira acadêmica, como professor visitante e palestrante no MIT e Berkeley. Ele também é o autor de quatro livros e muitos artigos sobre a tecnologia da informação e suas relações com as questões econômicas, políticas e sociais. É ainda um membro vitalício do Conselho de Relações Exteriores, um diretor da Fundação Franco-Americana, e suporta várias organizações sem fins lucrativos.


Seu interesse em cinema começou com ajuda para festivais de cinema pequenos. Segundo suas declarações na época, em meados de 2005, depois de saber que nenhum filme documentário que abrangeria a política dos EUA no Iraque estava sendo feito ou foi planejado, ele formou a Representational Pictures e começou a produção de “No End In Sight”. O filme afirma que os erros graves cometidos pelo governo do presidente George W. Bush durante esse tempo foram a causa dos problemas que se seguiram no Iraque, como a ascensão da insurgência, a falta de segurança e de serviços básicos para muitos iraquianos, a violência sectária e o risco de guerra civil completa.


Em “Trabalho Interno”, Charles Ferguson é quem faz as entrevistas, mas não aparece no vídeo, apenas sua voz é ouvida.


O narrador, parte muito importante de quase todos os documentários por conduzir a obra e fazer julgamentos, é Matt Damon, 41 anos. Ele é ator de sucesso nos EUA, roteirista e filantropo. Defende causas como a diminuição do lixo eletrônico, preservação da água, combate a Aids e pobreza na África, entre outras. Foi crítico da invasão norte-americana no Iraque após o11 de Setembro. Também fez críticas públicas contra a política republicana Sarah Palin, ex-candidata a vice Presidência pelo partido Republicano.






+ Código: imagens, sons e textos


A obra utiliza imagens de arquivo (entrevistas a canais de televisão mundiais; imagens que remetem a recessão como de filas de desempregados, obras paradas, casas vazias etc.; fotos de personalidades; paisagens naturais); animações gráficas; imagens de documentos; e entrevistas.


Além dos sons das palavras das entrevistas, a trilha sonora tem as músicas:


“Big Time”, de Peter Gabriel


“New York Groove”, de Russell Ballard


“Takin' Care of Business”, de Randy Bachman


“Congratulations”, de Ben Goldwasser & Andrew VanWyngarden


A melodia e letras reforçam momentos do filme que falam de ostentação de riqueza e poder. “Big Time”, por exemplo, aparece nos créditos de abertura, com os prédios luxuosos de Wall Street e Nova York e pequenas falas dos entrevistados que virão no decorrer do filme.


Os textos escritos são reproduções documentos: balanços financeiros de bancos, demonstrativo de patrimônio de personagens do filme, documentos governamentais sobre regulação financeira e artigos acadêmicos sobre o sistema financeiro.






+ Canal - Cinema e vídeo


Os meios de distribuição foram/são o cinema e revendedoras da obra em mídias como DVD. O filme também já foi parar na internet em arquivos piratas.


Os canais de repercussão de sinopses e trechos do filme têm sido a internet, jornais e programas de televisão. O filme também foi bem divulgado na cerimônia do Oscar de 2011, já que a película ganhou o prêmio de melhor documentário.






+ Contexto - O mundo ainda em recuperação e/ou em crise


O eixo principal do filme são os anos de 2008 e 2009, de eclosão e piores efeitos da crise financeira mundial nos EUA e em menor carga na Islândia, Reino Unido, Singapura e China. Mas também são lembrados fatos nos EUA desde o governo do presidente Ronald Reagan (1981-1989) relacionados à desregulação do mercado financeiro.


A campanha eleitoral e o primeiro ano de governo do presidente Barack Obama também são destacados em relação ao discurso eleitoral e à ação efetiva da administração Obama para controlar a crise.


O ano de lançamento do documentário, 2010, mostrava grande parte dos países ricos ainda sentindo os efeitos da crise. Os EUA continuavam injetando bilhões de dólares em sua economia para tentar sair da recessão e principalmente os países Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha e Itália estavam com sérios problemas de dívida pública e desemprego que colocavam toda a Europa em risco. Por tabela, o resto do mundo tinha o comércio internacional ainda em ritmo lento se comparado ao período pré-crise.






+ Receptor - audiência cult, especialista


O filme custou US$ 2 milhões e já teve receitas de US$ 7,3 milhões. Grande resultado para um documentário, que costuma ter um público pequeno, de perfil intelectual, acadêmico ou cult. Como já dito, o Oscar deve ter ajudado nesse bom público, além de vários assuntos mostrados no filme estarem “frescos”.






- Lista de personagens


São muitos, mas os mais relevantes ou com mais tempo na tela entrevistados são:


CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO QUE LEVOU A CRISE


Andrew Sheng - Assessor-chefe da Comissão de Regulação Bancária da China


Barney Frank - Chairman da Comissão Financeira da Câmara dos Deputados dos EUA


Nouriel Roubini, Professor de negócios na NYU


Martin Wolf, Principal comentarista econômico do “Financial Times”


Daniel Alpert, Diretor-geral da Westwood Capital


Satyajit Das, Consultor de derivativos


Raghuram Rajan, Economista-chefe do FMI entre 2003-2007


Allan Sloan, Editor-sênior da revista "Fortune"


Jerome Fons, Ex-diretor-gerente da Moody's


George Soros, Investidor bilionário


Charles Morris, Autor de “The Two Trillion Dollar Meltdown”


Eliot Spitzer, Ex-governador e ex-procurador geral de Nova York


Kristin Davis, Ex-agenciadora de prostitutas para funcionários de Wall Street


Jonathan Alpert, Terapeuta de funcionários de Wall Street


Robert Gnaizda, Ex-diretor do Greenlining Institute


Dominique Strauss-Kahn, Diretor-executivo do FMI


Christine Lagarde, Ministra da economia na França


Gillian Tett, Editora-geral do “Financial Times”


Paul Volcker, trabalhou no departamento do Tesouro e foi chairman do Federal Reserve de 1979 a 1987










A FAVOR DO SISTEMA FINANCEIRO QUE LEVOU A CRISE


Martin Feldstein, professor de economia de Harvard, foi assessor de economia do presidente Reagan e um dos grandes arquitetos da desregulamentação


Glenn Hubbard, reitor da Columbia Business School, foi chairman do Comitê de Conselheiros Econômicos de George W. Bush


Frederic Mishkin, economista de Columbia, também foi do Fed de 2006 a 2008


John Campbell - Chairman do Departamento de Economia de Harvard


Scott Talbott, lobista-chefe do Financial Services Roundtable


David McCormick, subsecretário do Tesouro do governo George W. Bush






- Principais palavras usadas


Na transcrição das narrações e entrevistas feitas do documentário foram mais citadas as palavras: crise, desregulamentação, economia, sistema financeiro, bancos, Wall Street, bolha, lucro, crédito, dinheiro, derivativos, hipotecas, securitização, inadimplência, swaps, risco, bônus, aposta, agências de rating, grau de investimento, colapso, falência, lobistas, políticos, acadêmicos, prostituição, corrupção e drogas.


Nas imagens mais mostradas, além das pessoas entrevistadas, as cenas com mais tempo são: imagens de efeitos da crise (filas de pessoas procurando emprego, obras e máquinas paradas, casas vazias); animações gráficas sobre o funcionamento e o lucro e depois o colapso do sistema financeiro; imagens de ostentação dos membros do mercado financeiro (iates, jatos, casas luxuosas); falas de pessoas ligadas ao mercado financeiro que não quiseram dar entrevista (imagens de arquivo com cerimônias públicas e entrevistas para canais de televisão); e reproduções de documentos.






- Sequências de imagens


O próprio documentário fez essa divisão em capítulos:


Introdução: como a crise financeira destruiu a economia da Islândia e tem um caráter mundial; a criação de um chamado “esquema Ponzi”, operação de investimento fraudulenta que tem um retorno para os investidores em separado, não de qualquer lucro real auferido pela organização, mas a partir de seu próprio dinheiro ou o dinheiro pago pelos investidores subseqüentes;


Como Chegamos Lá – afirmações, entrevistas e cenas sobre o mercado financeiro após a Grande Depressão (1929-década de 1930) que mostram que os bancos eram regulados nos EUA e lucravam muito menos, mas havia prosperidade; desregulamentação financeira iniciada pelo presidente Ronald Reagan (1981-1989) e, segundo o filme, completada por Bill Clinton (1993-2001) e George W. Bush (2001-2009); inicio da concentração financeira com grandes conglemerados; investimentos de risco penalizando correntistas e enriquecendo banqueiros; bancos de investimentos usando securitização em suas operações com os CDOs (obrigações de dívidas colaterizadas), avalizadas pelas agências de risco.


A Bolha – o boom do financiamento imobiliário nos EUA; aumento nos empréstimos mais arriscados, chamados de subprime; esse mecanismo teria criado um “esquema Ponzi” global; seguradoras vendiam enormes quantidades de derivativos, CDS (swaps de crédito), para os investidores em CDOs - os CDS eram como uma apólice de seguro; mas, ao contrário dos seguros comuns, os investidores também podiam comprar CDS para apostar contra CDOs alheios; como os CDS não eram regulamentados, seguradoras não separavam verbas para cobrir possíveis perdas; no final de 2006 o sistema já não se limitava mais a vender apenas CDOs tóxicas, passou a apostar também contra elas enquanto dizia aos clientes que eram investimentos de alta qualidade; as três agências de rating, Moody's, S&P e Fitch ganharam bilhões de dólares dando notas altas a papéis arriscados. Kristin Davis, ex-agenciadora de prostitutas para funcionários de Wall Street, e Jonathan Alpert, terapeuta de funcionários de Wall Street, falam dos vícios bancados pela fortuna do sistema financeiro: cocaína e prostituição principalmente.


A Crise - em 2008, as retomadas de imóveis dispararam e a cadeia alimentar da securitização implodiu; mutuantes já não conseguiam vender empréstimos a bancos de investimentos; e quando os empréstimos micavam dezenas de mutuantes faliam; o mercado de CDOs afundou deixando os bancos com centenas de bilhões de dólares em empréstimos, CDOs e imóveis que não conseguiam vender; um pacote de US$ 700 bilhões é votado no Congresso para socorrer os bancos; a recessão aumenta o desemprego para 10% e empresas como GM e Chrysler ficam a beira da falência com a recessão.


A Prestação de Contas – lista de alguns executivos de bancos e seguradoras, que perderam o emprego após a crise, mas receberam fortunas. Stan O'Neal, o CEO da Merrill Lynch, ganhou US$ 90 milhões em 2006 e 2007. E depois de afundar a empresa o conselho da Merrill aceitou sua renúncia. E ele ainda recebeu US$ 161 milhões em indenização. Essa parte também mostra o poder do setor financeiro, representado por sua influência política (lobby e contribuições para campanhas) e intelectual (acadêmicos de destaque discretamente ganham fortunas ajudando o setor a moldar o debate público e políticas governamentais). Esse último aspecto é um dos mais explorados no filme, com um julgamento ético chegando ser feito em relação aos economistas que trabalham ao mesmo tempo para universidades, governo e sistema financeiro.


Onde Estamos Agora – contextualiza situação recente da economia norte-americana após a competição com outras nações se acirrar nos anos 1990. Milhões de americanos perderam emprego. Hoje as vagas são mais abertas em empresas de tecnologia, mas que exigem alta formação. Só que a maioria dos americanos não tem condições de pagar uma universidade. Por outro lado, o filme destaca que George W. Bush diminuiu impostos para ricos. O filme termina mostrando que após a eclosão da crise o controle do sistema financeiro não foi feito pelo presidente Barack Obama, que chamou para sua equipe econômica as mesmas pessoas envolvidas na crise financeira mundial, como Timothy Geithner para Secretário do Tesouro. Geithner era o chairman do Fed de NY durante a crise e um dos protagonistas na decisão de pagar ao Goldman Sachs 100 centavos por dólar pelas suas apostas contra as hipotecas.O filme destaca que nenhuma instituição financeira foi processada criminalmente por fraude mobiliária ou contábil.






- Omissões


A maioria dos protagonistas da crise financeira mundial nos EUA não deu entrevista, segundo o diretor não quiseram falar. Porém, a película usa do recurso de imagens de arquivo dessas pessoas, com falas para canais de televisão ou eventos públicos. Só que essas imagens de arquivo são negativas para os personagens e servem para corroborar as teses do diretor. Por exemplo, em 2010, os executivos da Goldman Sachs tiveram que depor no Congresso. Nas audiências, segundo informações obtidas pelo senador Carl Levin, foi revelado que os vendedores da Goldman Sachs trocavam entre si e-mails como: "Cara, a Timberwolf é um negócio de merda." Daniel Sparks, ex-chefe de hipotecas do Goldman Sachs (2006-2008), argumentou que recebeu esse e-mail só após a transação ser encerrada, mas depois reconheceu que continuou vendendo mesmo assim. Em entrevista pública de 10 de julho de 2008, após o Bear Sterarns quebrar e ser comprado, Henry Paulson, secretário do Tesouro (2006-2009), disse que: “Vi aqueles bancos de investimento trabalhando com o Fed e com a SEC para revigorar sua liquidez para fortalecer sua situação de capital. Recebo relatórios o tempo todo. Nossos reguladores estão atentos.” O filme mostra depois gigantes hipotecários à beira do colapso.


Economistas ou pensadores liberais, a favor da desregulamentação, não foram ouvidos. Não mencionam também os possíveis benefícios dessa postura para um país.






- Comparações


São comparados o sistema financeiro regulado (após a Grande Depressão) e o desregulado (começando no governo Reagan). O primeiro era, segundo o filme, menos ganancioso, menos lucrativo para os banqueiros e também possibilitava crescimento econômico. O segundo cria fortunas para poucos banqueiros, tem lucros bilionários, é corrupto e causa crises que afetam milhões de pessoas.


O filme também compara o caso Eliot Spitzer com o tratamento dado aos executivos do sistema financeiro. Eliot Spitzer foi governador do estado de Nova York de janeiro de 2007 até o dia 12 de março de 2008, quando anunciou sua renúncia. Ele se envolveu em um escândalo sexual. A polícia descobriu que ele fez uso dos serviços da prostituta Ashley Alexandra Dupré. Parte do escândalo foi revelado ao FBI pela cafetina brasileira Andréia Schwartz.


O filme afirma que “num ramo em que o uso de drogas, a prostituição e o reembolso fraudulento de despesas de negócios com prostitutas ocorrem em âmbito setorial não seria difícil as pessoas falarem, se você quisesse. Os promotores federais usaram os vícios pessoais de Eliot Spitzer para obrigá-lo a renunciar em 2008. Não demonstraram o mesmo entusiasmo com relação a Wall Street.”






- Ênfase


A desregulamentação financeira abriu espaço para especulações de bilhões de dólares, que fomentou bancos, seguradoras e agências de risco, ao mesmo tempo que alimentou a corrupção política e intelectual e colocou em risco as economias de milhões de pessoas pelo mundo. Há uma ênfase moral também, relacionada à riqueza exagerada do setor financeiro, de sua falta de punição pelos erros cometidos e seus vícios com entorpecentes e sexo.














ANÁLISE


O diretor Charles Ferguson conhece a administração pública e o mundo acadêmico dos EUA por dentro e foi um crítico do governo de George W. Bush, portanto, grande parte das ideias defendidas em seu filme são coerentes com sua vida pessoal e profissional. Ele também é especialista do mundo da alta tecnologia, portanto sabe dos males que o sistema financeiro fez para o setor no final dos anos de 1990 com a bolha da internet. Por isso também o filme ataca a nova bolha, a de crédito.


Pelo número de depoimentos e imagens tão maior contra o sistema financeiro, pelo narrador com perfil de esquerda, o filme também tem um pouco de militante e uma posição política amplamente favorável ao controle da economia. Esse aspecto militante aparece principalmente no final do filme com a narração de Matt Damon com as imagens da Estátua da Liberdade:






“Por décadas o sistema financeiro dos EUA foi estável e seguro. Até que alguma coisa mudou. O setor financeiro deu as costas à sociedade, corrompeu nosso sistema político e mergulhou a economia mundial numa crise.


A um custo enorme nós evitamos uma tragédia e estamos nos recuperando. Mas os homens e as instituições que causaram a crise continuam no poder. E isso precisa mudar.


Eles dirão que precisamos deles e que o que fazem é complicado demais para que entendamos. Eles dirão que isso não tornará a acontecer. Eles gastarão bilhões combatendo as reformas. Não será fácil. Mas há coisas pelas quais vale lutar.”






A Estátua da Liberdade é cheia de simbolismo. Oficialmente se chama "A Liberdade Iluminando o Mundo". Comemora o centenário da assinatura da Declaração da Independência dos Estados Unidos. Com isso o filme afirma que a desregulamentação financeira, que a princípio deveria ser um sinal de liberdade, é na verdade um grilhão que prendeu um país todo e boa parte do mundo num sistema de poder e corrupção que favorece poucos e prejudica milhões.


Além da liberdade, outra característica simbólica forte nos EUA é o puritanismo, que é uma concepção da fé cristã desenvolvida na Inglaterra por uma comunidade de protestantes radicais depois da Reforma. Segundo o pensador francês Alexis de Tocqueville, em seu livro “A Democracia na América”, trata-se tanto de uma teoria política como de uma doutrina religiosa.


O adjetivo “puritano” pode designar tanto o membro deste grupo de presbiterianos rigoristas como aquele que é rígido nos costumes, especialmente quanto ao comportamento sexual (pessoa austera, rígida e moralista).


O documentário “Trabalho Interno” é puritano ao condenar o comportamento privados dos “homens de Wall Street”. Mesmo isso tendo pouco ou nada a ver com a economia ou política, o filme entrevista o terapeuta Jonathan Alpert, que diz que as pessoas que atende de Wall Street são propensas ao risco e costumam frequentar clubes de strip e usam drogas, e diz que isso é um “desrespeito flagrante ao impacto que seus atos teriam sobre a sociedade e a família. Eles [homens de Wall Street] empregam prostitutas e voltam tranquilamente para suas mulheres”. O professor e diretor do laboratório de engenharia financeira da MIT, Andrew Lo, também dá uma declaração dizendo que neurocientistas chegaram à conclusão que o prazer de ganhar dinheiro estimula a mesma parte do cérebro que a cocaína afeta. A ex-agenciadora de prostitutas para funcionários de Wall Street, Kristin Davis, também é ouvida. Ele dá entrevista vestida sensualmente e fala que chegou a ter 10 mil clientes e que os gastos eram contabilizados para os homens como, por exemplo, “pesquisas de trading”. Mas claro, mesmo tudo isso sendo puritano, é lógico que deve ter ajudado na audiência do filme.


Na linguagem cinematográfica, o protagonista é o diretor Charles Ferguson, que apesar de não aparecer faz perguntas incisivas. No debate mais acolorado ele tira do sério um professor de Harvard:






Charles Ferguson: “Estou examinando o seu currículo. E me parece que a maioria de suas atividades externas é de consultoria a empresas financeiras ou participação em seus conselhos. Não concordaria com essa descrição?”


Glenn Hubbard: “Clientes de consultoria não constam do meu currículo, não sei.”


Charles Ferguson: “Quem são seus clientes de consultoria?”


Glenn Hubbard: “Não creio que eu tenha de discutir isso com você. Álias, restam-lhe alguns minutos para o fim da entrevista.”


Charles Ferguson: “Elas incluem outras empresas de serviços financeiros?”


Glenn Hubbard: “Possivelmente.”


Charles Ferguson: “Não se lembra?”


Glenn Hubbard: “Isso não é um depoimento. Fui gentil em lhe conceder meu tempo. Vejo que fui tolo. Tem mais três minutos. Capriche na tacada.” (Faz expressão de raiva)






O antagonista é o sistema financeiro como um todo (bancos, seguradoras e agências de risco). Ele sofre vários ataques ao longo do filme, perde dinheiro e poder, mas renasce no final. O herói descobriu ao final de sua trajetória que, em meados de 2010, nem um único alto executivo havia sido processado ou preso por crime. Nenhum promotor especial foi designado. Nenhuma instituição financeira foi processada criminalmente por fraude mobiliária ou contábil.


O governo Obama não tentou recuperar parte da remuneração paga aos executivos financeiros durante a bolha e as reformas financeiras do seu governo foram fracas. Isso é usado como um reforço de indignação, auxilia no tom militante no final do filme. O antagonista é poderoso, venceu a batalha, mas por princípios e porque ele não pagou por seus erros, a mensagem do herói no final é que a luta continua.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Inside Job2 - As bolhas

+ As bolhas
Como todos conseguiam empréstimos, os preços das casas dispararam nos EUA. O resultado foi a maior bolha financeira da história.

"A última vez que tivemos uma bolha habitacional foi no final de 80. Naquele caso, o aumento nos preços das casas foi relativamente menor. A bolha habitacional levou a uma recessão bastante severa. De 1996 a 2006 os preços reais das casas efetivamente dobrou."
Nouriel Roubini, professor de negócios na NYU


"Não era nem lucro nem renda. Era apenas dinheiro criado pelo sistema e contabilizado como renda. Em dois, três anos, se houvesse calote, tudo desapareceria. Agora, pensando bem, foi um mega esquema, Ponzi nacional, não só isso, global".
Martin Wolf, principal comentarista econômico do Financial Times

Sob a lei, Home Ownership and Equity Protection, o Fed tinha ampla autoridade para regular o setor de hipotecas. O Federal Reserve Board emitiria as normas necessárias, porém Alan Greenspan se recusou a usá-la.

Na bolha, os bancos de investimento contraíram grandes empréstimos para comprar mais hipotecas e criar mais CDOs. O índice de dívidas de capital dos bancos era chamado de "alavancagem". Quanto mais se endividavam, maior era a alavancagem.
Em 2004, Henry Paulson, CEO da Goldman Sachs, pressionou a SEC para atenuar as restrições à alavancagem permitindo que os bancos inflassem seu endividamento.
Em 28 de abril de 2004, a SEC elevou o limite de alavancagem dos bancos de investimento.
"O nível de alavancagem do sistema financeiro tornou-se absolutamente assustador. Os bancos se alavancaram até o nível de 33:1. Ou seja, uma redução minúscula de 3% em sua base de ativos os deixaria insolventes."
Daniel Alpert, diretor-geral da Westwood Capital

Havia outra bomba-relógio no sistema financeiro. AIG, a maior seguradora do mundo vendia enormes quantidades de derivativos, CDS (swaps de crédito).
Para o investidores em CDOs os CDS eram como uma apólice de seguro. Os investidores que comprassem CDS pagavam um prêmio trimestral à AIG. Se as CDOs micassem a AIG indenizava os investidores.
Mas, ao contrário dos seguros comuns, os investidores também podiam comprar CDS da AIG para apostar contra CDOs alheios.

"O seguro comum só garante os bens do segurado. Eu tenho uma casa, digamos. Só posso fazer o seguro dela uma vez. Os derivativos permitem que qualquer um faça o seguro da casa. E nesse caso, você ou 50 pessoas poderiam segurar minha casa. E o que acontece se um incêndio a destruir? O volume de perdas no sistema seria proporcionalmente maior."
Satyajit Das, consultor de derivativos

Como os CDS não eram regulamentados a AIG não separava verbas para cobrir possíveis perdas. Em vez disso, pagava aos empregados enormes bônus em dinheiro tão logo se assinavam os contratos. Mas se as CDOs micassem a AIG ficaria pendurada.

"Basicamente, as pessoas eram recomprensadas por assumir grandes riscos. Nos bons tempos, geravam receitas e lucros imediatos e ganhamvam bônus. Mas, com o tempo, isso levaria a empresa à falência. É um sistema de remuneração 100% distorcido."
Nouriel Roubini, professor de negócios na NYU

A divisão de produtos financeiros da AIG, em LOndres emitiu US$ 500 bilhões em CDS durante a bolha, boa parte referente a CDOs lastreadas em hipotecas subprime. Os 400 funcionários da AIGFP ganharam US$ 3,5 bilhões de 2000 a 2007.


Em 2006, Raghuram Rajan, economista-chefe do FMI entre 2003-2007, apresentou para os banqueiros centrais do mundo o trabalho "O desenvolvimento financeiro põe o mundo em risco?".
O trabalho de Rajan versou sobre os incentivos que geravam bônus com lucros imediatos sem punição por perdas posteriores. Para ele, os incentivos levavam os banqueiros a assumir riscos que poderiam destruir suas próprias empresas e até o sistema financeiro.


O Goldman Sachs vendeu, pelo menos, US$ 3,1 bilhões dessas CDOs tóxicas na 1a. metade de 2006. O CEO da Goldman Sachs, à época, era Henry Paulson, o CEO mais bem pago de Wall Street. No mesmo ano de 2006 ele foi nomeado Secretário do Tesouro pelo presidente George W. Bush.
Vendeu sua participação de US$ 485 milhões no Goldman Sachs quando foi trabalhar no governo.

Em outubro de 2007, Allan Sloan, editor-sênior da revista "Fortune", publicou um artigo sobre as CDOs emitidas no último mês de Paulson como CEO. Na época um terço das hipotecas estava inadimplentes.
Um grupo que comprara esses papéis hoje sem valor foi o Sistema de Aposentadorias dos Servidores Públicos do Mississipi que paga benefícios mensais a mais de 80 mil aposentados.
Eles perderam milhões de dólares e agora estão processando o Goldman Sachs.
A aposentadoria anual média do servidor público do Mississipi é de US$ 18.750. A remuneração média anual de um empregado da Goldman Sachs é de US$ 600 mil. A remuneração de Henry Paulson era de US$ 31 milhões.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Inside Job1 - Cadeia Alimentar da Securitização

Andrew Sheng
Assessor-chefe da Comissão de Regulação Bancária da China
"Desde o fim da Guerra Fria muitos ex-físicos e matemáticos decidiram trabalhar não em tecnologia bélica mas, sim, nos mercados financeiros. Com bancos e fundos de hedge. Como disse Warren Buffett, criando armas de destruição em massa.

Barney Frank
Chairman da Comissão Financeira da Câmara
"Há 30 anos, ao pedir empréstimo para comprar uma casa quem lhe emprestava esperava que você pagasse a dívida. O mutuante queria o dinheiro de volta. Nós agora temos a securitização, pela qual o mutuante não mais corre risco de inadimplência."

Usando derivativos, os financistas podiam jogar com praticamente tudo: apostar nos preços do petróleo, na falência de uma empresa, até no clima. No final da década de 1990, os derivativos, já eram um mercado não regulado de R$ 50 trilhões.

+ Cadeia Alimentar da Securitização

Sistema que distribuía trilhões de dólares em hipotecas e outros empréstimos a investidores de todo o mundo em 2001
O setor financeiro dos EUA era mais lucrativo, concentrado e poderoso do que nunca
Dominavam o setor cinco bancos de investimento (Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman Brothers, Merril Lynch, Bear Sterarns), dois conglomerados financeiros (Citigroup, JP Morgan), três seguradoras de títulos (AIG, MBIA, AMBAC) e três agências de rating (Moody's, Standard & Poor's, Fitch)

+ Sistema antigo para comprar uma casa
No sistema antigo, quando o mutuário pagava a hipoteca todos os meses o dinheiro ia para o mutuante local. Como o amortização das hipotecas levava décadas, era preciso cuidado.

+ Sistema atual, com vários atores agora
No sistema atual, mutuantes vendem as hipotecas a bancos de investimento. Esses bancos reúnem  milhares de hipotecas e outros empréstimos, financiamentos de carro, empréstimos a estudantes e dívidas de cartão para criar derivativos complexos: as obrigações de dívidas colaterizadas ou CDOs.
Os bancos de investimento, então, vendem as CDOs a investidores. E quando os mutuários pagam suas hipotecas o dinheiro vai para investidores em todo o mundo.
Os bancos contratam agências de rating para avaliar as CDOs e muitas obtêm classificação AAA, o grau de investimento mais alto possível.
Assim, as CDOs ficaram atraentes para fundos de pensão, que só compram papéis de alta classificação.

O sistema era uma bomba-relógio. Mutuantes não ligavam se mutuários não podiam pagar e concediam empréstimos mais arriscados.
Para os bancos, tanto fazia. Quanto mais CDOs, mais lucravam.
E as agências de rating, pagas pelos bancos de investimentos nada perdiam se errassem na classificação das CDOs.


No começo de 2000, houve um aumento nos empréstimos mais arriscados, chamados de "subprime". Mas quando milhares de empréstimos subprime eram embalados em CDOs muitos ainda recebiam classificação AAA.

Os bancos preferiam empréstimos subprime. Recebiam juros mais altos. Isso levou a aumento maciço dos empréstimos predatórios. Incluíam-se, sem precisar, mutuários em empréstimos subprime caros e se concediam empréstimos a pessoas incapazes de pagar.