domingo, 24 de julho de 2011

Análise do discurso - Trabalho Interno: crise econômica, moral e corrupção








INTRODUÇÃO


Este presente trabalho analisa o documentário Trabalho Interno (“Inside Job”, EUA, 2010). O tema é a crise financeira mundial de 2008-2009, destacando principalmente seus desdobramentos nos EUA e parcialmente na Islândia.


O filme faz uma análise técnica da crise, mostrando seus motivos econômicos, e também faz juízo de valor: para seus autores, o sistema financeiro dos EUA criou uma corrupção sistêmica naquele país. O setor financeiro é atacado tanto pelos prejuízos monetários que causou como também por agressões a valores morais que os autores defendem – ética profissional/acadêmica e luta contra as drogas e prostituição.






DESCRIÇÃO


+ Emissor: documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson


O diretor e roteirista é Charles Ferguson, 56 anos, fundador e presidente da Representational Pictures, Inc. Também dirigiu “No End In Sight: A ocupação americana do Iraque” (2007). É também cientista político, matemático e obteve um Ph.D. em ciências políticas pela MIT em 1989. Ferguson, em seguida, realizou uma pesquisa de pós-doutorado no MIT ao mesmo tempo deu consultoria para a Casa Branca, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA e para o Departamento de Defesa, e dos EUA e da Europa, além para várias empresas de alta tecnologia. De 1992-1994 Ferguson era um consultor independente, fornecendo consultoria estratégica para as gerências de empresas de tecnologia, incluindo Apple, Xerox, Motorola e Texas Instruments.


Em 1994, criou a Vermeer Technologies. Junto com Randy Forgaard, criou uma das primeiras ferramentas de desenvolvimento visual de web site, o FrontPage. No início de 1996, a Vermeer foi vendida por US$ 133 milhões para a Microsoft, que integrou o FrontPage no Office Microsoft.


Após isso, Ferguson se dedicou a carreira acadêmica, como professor visitante e palestrante no MIT e Berkeley. Ele também é o autor de quatro livros e muitos artigos sobre a tecnologia da informação e suas relações com as questões econômicas, políticas e sociais. É ainda um membro vitalício do Conselho de Relações Exteriores, um diretor da Fundação Franco-Americana, e suporta várias organizações sem fins lucrativos.


Seu interesse em cinema começou com ajuda para festivais de cinema pequenos. Segundo suas declarações na época, em meados de 2005, depois de saber que nenhum filme documentário que abrangeria a política dos EUA no Iraque estava sendo feito ou foi planejado, ele formou a Representational Pictures e começou a produção de “No End In Sight”. O filme afirma que os erros graves cometidos pelo governo do presidente George W. Bush durante esse tempo foram a causa dos problemas que se seguiram no Iraque, como a ascensão da insurgência, a falta de segurança e de serviços básicos para muitos iraquianos, a violência sectária e o risco de guerra civil completa.


Em “Trabalho Interno”, Charles Ferguson é quem faz as entrevistas, mas não aparece no vídeo, apenas sua voz é ouvida.


O narrador, parte muito importante de quase todos os documentários por conduzir a obra e fazer julgamentos, é Matt Damon, 41 anos. Ele é ator de sucesso nos EUA, roteirista e filantropo. Defende causas como a diminuição do lixo eletrônico, preservação da água, combate a Aids e pobreza na África, entre outras. Foi crítico da invasão norte-americana no Iraque após o11 de Setembro. Também fez críticas públicas contra a política republicana Sarah Palin, ex-candidata a vice Presidência pelo partido Republicano.






+ Código: imagens, sons e textos


A obra utiliza imagens de arquivo (entrevistas a canais de televisão mundiais; imagens que remetem a recessão como de filas de desempregados, obras paradas, casas vazias etc.; fotos de personalidades; paisagens naturais); animações gráficas; imagens de documentos; e entrevistas.


Além dos sons das palavras das entrevistas, a trilha sonora tem as músicas:


“Big Time”, de Peter Gabriel


“New York Groove”, de Russell Ballard


“Takin' Care of Business”, de Randy Bachman


“Congratulations”, de Ben Goldwasser & Andrew VanWyngarden


A melodia e letras reforçam momentos do filme que falam de ostentação de riqueza e poder. “Big Time”, por exemplo, aparece nos créditos de abertura, com os prédios luxuosos de Wall Street e Nova York e pequenas falas dos entrevistados que virão no decorrer do filme.


Os textos escritos são reproduções documentos: balanços financeiros de bancos, demonstrativo de patrimônio de personagens do filme, documentos governamentais sobre regulação financeira e artigos acadêmicos sobre o sistema financeiro.






+ Canal - Cinema e vídeo


Os meios de distribuição foram/são o cinema e revendedoras da obra em mídias como DVD. O filme também já foi parar na internet em arquivos piratas.


Os canais de repercussão de sinopses e trechos do filme têm sido a internet, jornais e programas de televisão. O filme também foi bem divulgado na cerimônia do Oscar de 2011, já que a película ganhou o prêmio de melhor documentário.






+ Contexto - O mundo ainda em recuperação e/ou em crise


O eixo principal do filme são os anos de 2008 e 2009, de eclosão e piores efeitos da crise financeira mundial nos EUA e em menor carga na Islândia, Reino Unido, Singapura e China. Mas também são lembrados fatos nos EUA desde o governo do presidente Ronald Reagan (1981-1989) relacionados à desregulação do mercado financeiro.


A campanha eleitoral e o primeiro ano de governo do presidente Barack Obama também são destacados em relação ao discurso eleitoral e à ação efetiva da administração Obama para controlar a crise.


O ano de lançamento do documentário, 2010, mostrava grande parte dos países ricos ainda sentindo os efeitos da crise. Os EUA continuavam injetando bilhões de dólares em sua economia para tentar sair da recessão e principalmente os países Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha e Itália estavam com sérios problemas de dívida pública e desemprego que colocavam toda a Europa em risco. Por tabela, o resto do mundo tinha o comércio internacional ainda em ritmo lento se comparado ao período pré-crise.






+ Receptor - audiência cult, especialista


O filme custou US$ 2 milhões e já teve receitas de US$ 7,3 milhões. Grande resultado para um documentário, que costuma ter um público pequeno, de perfil intelectual, acadêmico ou cult. Como já dito, o Oscar deve ter ajudado nesse bom público, além de vários assuntos mostrados no filme estarem “frescos”.






- Lista de personagens


São muitos, mas os mais relevantes ou com mais tempo na tela entrevistados são:


CONTRA O SISTEMA FINANCEIRO QUE LEVOU A CRISE


Andrew Sheng - Assessor-chefe da Comissão de Regulação Bancária da China


Barney Frank - Chairman da Comissão Financeira da Câmara dos Deputados dos EUA


Nouriel Roubini, Professor de negócios na NYU


Martin Wolf, Principal comentarista econômico do “Financial Times”


Daniel Alpert, Diretor-geral da Westwood Capital


Satyajit Das, Consultor de derivativos


Raghuram Rajan, Economista-chefe do FMI entre 2003-2007


Allan Sloan, Editor-sênior da revista "Fortune"


Jerome Fons, Ex-diretor-gerente da Moody's


George Soros, Investidor bilionário


Charles Morris, Autor de “The Two Trillion Dollar Meltdown”


Eliot Spitzer, Ex-governador e ex-procurador geral de Nova York


Kristin Davis, Ex-agenciadora de prostitutas para funcionários de Wall Street


Jonathan Alpert, Terapeuta de funcionários de Wall Street


Robert Gnaizda, Ex-diretor do Greenlining Institute


Dominique Strauss-Kahn, Diretor-executivo do FMI


Christine Lagarde, Ministra da economia na França


Gillian Tett, Editora-geral do “Financial Times”


Paul Volcker, trabalhou no departamento do Tesouro e foi chairman do Federal Reserve de 1979 a 1987










A FAVOR DO SISTEMA FINANCEIRO QUE LEVOU A CRISE


Martin Feldstein, professor de economia de Harvard, foi assessor de economia do presidente Reagan e um dos grandes arquitetos da desregulamentação


Glenn Hubbard, reitor da Columbia Business School, foi chairman do Comitê de Conselheiros Econômicos de George W. Bush


Frederic Mishkin, economista de Columbia, também foi do Fed de 2006 a 2008


John Campbell - Chairman do Departamento de Economia de Harvard


Scott Talbott, lobista-chefe do Financial Services Roundtable


David McCormick, subsecretário do Tesouro do governo George W. Bush






- Principais palavras usadas


Na transcrição das narrações e entrevistas feitas do documentário foram mais citadas as palavras: crise, desregulamentação, economia, sistema financeiro, bancos, Wall Street, bolha, lucro, crédito, dinheiro, derivativos, hipotecas, securitização, inadimplência, swaps, risco, bônus, aposta, agências de rating, grau de investimento, colapso, falência, lobistas, políticos, acadêmicos, prostituição, corrupção e drogas.


Nas imagens mais mostradas, além das pessoas entrevistadas, as cenas com mais tempo são: imagens de efeitos da crise (filas de pessoas procurando emprego, obras e máquinas paradas, casas vazias); animações gráficas sobre o funcionamento e o lucro e depois o colapso do sistema financeiro; imagens de ostentação dos membros do mercado financeiro (iates, jatos, casas luxuosas); falas de pessoas ligadas ao mercado financeiro que não quiseram dar entrevista (imagens de arquivo com cerimônias públicas e entrevistas para canais de televisão); e reproduções de documentos.






- Sequências de imagens


O próprio documentário fez essa divisão em capítulos:


Introdução: como a crise financeira destruiu a economia da Islândia e tem um caráter mundial; a criação de um chamado “esquema Ponzi”, operação de investimento fraudulenta que tem um retorno para os investidores em separado, não de qualquer lucro real auferido pela organização, mas a partir de seu próprio dinheiro ou o dinheiro pago pelos investidores subseqüentes;


Como Chegamos Lá – afirmações, entrevistas e cenas sobre o mercado financeiro após a Grande Depressão (1929-década de 1930) que mostram que os bancos eram regulados nos EUA e lucravam muito menos, mas havia prosperidade; desregulamentação financeira iniciada pelo presidente Ronald Reagan (1981-1989) e, segundo o filme, completada por Bill Clinton (1993-2001) e George W. Bush (2001-2009); inicio da concentração financeira com grandes conglemerados; investimentos de risco penalizando correntistas e enriquecendo banqueiros; bancos de investimentos usando securitização em suas operações com os CDOs (obrigações de dívidas colaterizadas), avalizadas pelas agências de risco.


A Bolha – o boom do financiamento imobiliário nos EUA; aumento nos empréstimos mais arriscados, chamados de subprime; esse mecanismo teria criado um “esquema Ponzi” global; seguradoras vendiam enormes quantidades de derivativos, CDS (swaps de crédito), para os investidores em CDOs - os CDS eram como uma apólice de seguro; mas, ao contrário dos seguros comuns, os investidores também podiam comprar CDS para apostar contra CDOs alheios; como os CDS não eram regulamentados, seguradoras não separavam verbas para cobrir possíveis perdas; no final de 2006 o sistema já não se limitava mais a vender apenas CDOs tóxicas, passou a apostar também contra elas enquanto dizia aos clientes que eram investimentos de alta qualidade; as três agências de rating, Moody's, S&P e Fitch ganharam bilhões de dólares dando notas altas a papéis arriscados. Kristin Davis, ex-agenciadora de prostitutas para funcionários de Wall Street, e Jonathan Alpert, terapeuta de funcionários de Wall Street, falam dos vícios bancados pela fortuna do sistema financeiro: cocaína e prostituição principalmente.


A Crise - em 2008, as retomadas de imóveis dispararam e a cadeia alimentar da securitização implodiu; mutuantes já não conseguiam vender empréstimos a bancos de investimentos; e quando os empréstimos micavam dezenas de mutuantes faliam; o mercado de CDOs afundou deixando os bancos com centenas de bilhões de dólares em empréstimos, CDOs e imóveis que não conseguiam vender; um pacote de US$ 700 bilhões é votado no Congresso para socorrer os bancos; a recessão aumenta o desemprego para 10% e empresas como GM e Chrysler ficam a beira da falência com a recessão.


A Prestação de Contas – lista de alguns executivos de bancos e seguradoras, que perderam o emprego após a crise, mas receberam fortunas. Stan O'Neal, o CEO da Merrill Lynch, ganhou US$ 90 milhões em 2006 e 2007. E depois de afundar a empresa o conselho da Merrill aceitou sua renúncia. E ele ainda recebeu US$ 161 milhões em indenização. Essa parte também mostra o poder do setor financeiro, representado por sua influência política (lobby e contribuições para campanhas) e intelectual (acadêmicos de destaque discretamente ganham fortunas ajudando o setor a moldar o debate público e políticas governamentais). Esse último aspecto é um dos mais explorados no filme, com um julgamento ético chegando ser feito em relação aos economistas que trabalham ao mesmo tempo para universidades, governo e sistema financeiro.


Onde Estamos Agora – contextualiza situação recente da economia norte-americana após a competição com outras nações se acirrar nos anos 1990. Milhões de americanos perderam emprego. Hoje as vagas são mais abertas em empresas de tecnologia, mas que exigem alta formação. Só que a maioria dos americanos não tem condições de pagar uma universidade. Por outro lado, o filme destaca que George W. Bush diminuiu impostos para ricos. O filme termina mostrando que após a eclosão da crise o controle do sistema financeiro não foi feito pelo presidente Barack Obama, que chamou para sua equipe econômica as mesmas pessoas envolvidas na crise financeira mundial, como Timothy Geithner para Secretário do Tesouro. Geithner era o chairman do Fed de NY durante a crise e um dos protagonistas na decisão de pagar ao Goldman Sachs 100 centavos por dólar pelas suas apostas contra as hipotecas.O filme destaca que nenhuma instituição financeira foi processada criminalmente por fraude mobiliária ou contábil.






- Omissões


A maioria dos protagonistas da crise financeira mundial nos EUA não deu entrevista, segundo o diretor não quiseram falar. Porém, a película usa do recurso de imagens de arquivo dessas pessoas, com falas para canais de televisão ou eventos públicos. Só que essas imagens de arquivo são negativas para os personagens e servem para corroborar as teses do diretor. Por exemplo, em 2010, os executivos da Goldman Sachs tiveram que depor no Congresso. Nas audiências, segundo informações obtidas pelo senador Carl Levin, foi revelado que os vendedores da Goldman Sachs trocavam entre si e-mails como: "Cara, a Timberwolf é um negócio de merda." Daniel Sparks, ex-chefe de hipotecas do Goldman Sachs (2006-2008), argumentou que recebeu esse e-mail só após a transação ser encerrada, mas depois reconheceu que continuou vendendo mesmo assim. Em entrevista pública de 10 de julho de 2008, após o Bear Sterarns quebrar e ser comprado, Henry Paulson, secretário do Tesouro (2006-2009), disse que: “Vi aqueles bancos de investimento trabalhando com o Fed e com a SEC para revigorar sua liquidez para fortalecer sua situação de capital. Recebo relatórios o tempo todo. Nossos reguladores estão atentos.” O filme mostra depois gigantes hipotecários à beira do colapso.


Economistas ou pensadores liberais, a favor da desregulamentação, não foram ouvidos. Não mencionam também os possíveis benefícios dessa postura para um país.






- Comparações


São comparados o sistema financeiro regulado (após a Grande Depressão) e o desregulado (começando no governo Reagan). O primeiro era, segundo o filme, menos ganancioso, menos lucrativo para os banqueiros e também possibilitava crescimento econômico. O segundo cria fortunas para poucos banqueiros, tem lucros bilionários, é corrupto e causa crises que afetam milhões de pessoas.


O filme também compara o caso Eliot Spitzer com o tratamento dado aos executivos do sistema financeiro. Eliot Spitzer foi governador do estado de Nova York de janeiro de 2007 até o dia 12 de março de 2008, quando anunciou sua renúncia. Ele se envolveu em um escândalo sexual. A polícia descobriu que ele fez uso dos serviços da prostituta Ashley Alexandra Dupré. Parte do escândalo foi revelado ao FBI pela cafetina brasileira Andréia Schwartz.


O filme afirma que “num ramo em que o uso de drogas, a prostituição e o reembolso fraudulento de despesas de negócios com prostitutas ocorrem em âmbito setorial não seria difícil as pessoas falarem, se você quisesse. Os promotores federais usaram os vícios pessoais de Eliot Spitzer para obrigá-lo a renunciar em 2008. Não demonstraram o mesmo entusiasmo com relação a Wall Street.”






- Ênfase


A desregulamentação financeira abriu espaço para especulações de bilhões de dólares, que fomentou bancos, seguradoras e agências de risco, ao mesmo tempo que alimentou a corrupção política e intelectual e colocou em risco as economias de milhões de pessoas pelo mundo. Há uma ênfase moral também, relacionada à riqueza exagerada do setor financeiro, de sua falta de punição pelos erros cometidos e seus vícios com entorpecentes e sexo.














ANÁLISE


O diretor Charles Ferguson conhece a administração pública e o mundo acadêmico dos EUA por dentro e foi um crítico do governo de George W. Bush, portanto, grande parte das ideias defendidas em seu filme são coerentes com sua vida pessoal e profissional. Ele também é especialista do mundo da alta tecnologia, portanto sabe dos males que o sistema financeiro fez para o setor no final dos anos de 1990 com a bolha da internet. Por isso também o filme ataca a nova bolha, a de crédito.


Pelo número de depoimentos e imagens tão maior contra o sistema financeiro, pelo narrador com perfil de esquerda, o filme também tem um pouco de militante e uma posição política amplamente favorável ao controle da economia. Esse aspecto militante aparece principalmente no final do filme com a narração de Matt Damon com as imagens da Estátua da Liberdade:






“Por décadas o sistema financeiro dos EUA foi estável e seguro. Até que alguma coisa mudou. O setor financeiro deu as costas à sociedade, corrompeu nosso sistema político e mergulhou a economia mundial numa crise.


A um custo enorme nós evitamos uma tragédia e estamos nos recuperando. Mas os homens e as instituições que causaram a crise continuam no poder. E isso precisa mudar.


Eles dirão que precisamos deles e que o que fazem é complicado demais para que entendamos. Eles dirão que isso não tornará a acontecer. Eles gastarão bilhões combatendo as reformas. Não será fácil. Mas há coisas pelas quais vale lutar.”






A Estátua da Liberdade é cheia de simbolismo. Oficialmente se chama "A Liberdade Iluminando o Mundo". Comemora o centenário da assinatura da Declaração da Independência dos Estados Unidos. Com isso o filme afirma que a desregulamentação financeira, que a princípio deveria ser um sinal de liberdade, é na verdade um grilhão que prendeu um país todo e boa parte do mundo num sistema de poder e corrupção que favorece poucos e prejudica milhões.


Além da liberdade, outra característica simbólica forte nos EUA é o puritanismo, que é uma concepção da fé cristã desenvolvida na Inglaterra por uma comunidade de protestantes radicais depois da Reforma. Segundo o pensador francês Alexis de Tocqueville, em seu livro “A Democracia na América”, trata-se tanto de uma teoria política como de uma doutrina religiosa.


O adjetivo “puritano” pode designar tanto o membro deste grupo de presbiterianos rigoristas como aquele que é rígido nos costumes, especialmente quanto ao comportamento sexual (pessoa austera, rígida e moralista).


O documentário “Trabalho Interno” é puritano ao condenar o comportamento privados dos “homens de Wall Street”. Mesmo isso tendo pouco ou nada a ver com a economia ou política, o filme entrevista o terapeuta Jonathan Alpert, que diz que as pessoas que atende de Wall Street são propensas ao risco e costumam frequentar clubes de strip e usam drogas, e diz que isso é um “desrespeito flagrante ao impacto que seus atos teriam sobre a sociedade e a família. Eles [homens de Wall Street] empregam prostitutas e voltam tranquilamente para suas mulheres”. O professor e diretor do laboratório de engenharia financeira da MIT, Andrew Lo, também dá uma declaração dizendo que neurocientistas chegaram à conclusão que o prazer de ganhar dinheiro estimula a mesma parte do cérebro que a cocaína afeta. A ex-agenciadora de prostitutas para funcionários de Wall Street, Kristin Davis, também é ouvida. Ele dá entrevista vestida sensualmente e fala que chegou a ter 10 mil clientes e que os gastos eram contabilizados para os homens como, por exemplo, “pesquisas de trading”. Mas claro, mesmo tudo isso sendo puritano, é lógico que deve ter ajudado na audiência do filme.


Na linguagem cinematográfica, o protagonista é o diretor Charles Ferguson, que apesar de não aparecer faz perguntas incisivas. No debate mais acolorado ele tira do sério um professor de Harvard:






Charles Ferguson: “Estou examinando o seu currículo. E me parece que a maioria de suas atividades externas é de consultoria a empresas financeiras ou participação em seus conselhos. Não concordaria com essa descrição?”


Glenn Hubbard: “Clientes de consultoria não constam do meu currículo, não sei.”


Charles Ferguson: “Quem são seus clientes de consultoria?”


Glenn Hubbard: “Não creio que eu tenha de discutir isso com você. Álias, restam-lhe alguns minutos para o fim da entrevista.”


Charles Ferguson: “Elas incluem outras empresas de serviços financeiros?”


Glenn Hubbard: “Possivelmente.”


Charles Ferguson: “Não se lembra?”


Glenn Hubbard: “Isso não é um depoimento. Fui gentil em lhe conceder meu tempo. Vejo que fui tolo. Tem mais três minutos. Capriche na tacada.” (Faz expressão de raiva)






O antagonista é o sistema financeiro como um todo (bancos, seguradoras e agências de risco). Ele sofre vários ataques ao longo do filme, perde dinheiro e poder, mas renasce no final. O herói descobriu ao final de sua trajetória que, em meados de 2010, nem um único alto executivo havia sido processado ou preso por crime. Nenhum promotor especial foi designado. Nenhuma instituição financeira foi processada criminalmente por fraude mobiliária ou contábil.


O governo Obama não tentou recuperar parte da remuneração paga aos executivos financeiros durante a bolha e as reformas financeiras do seu governo foram fracas. Isso é usado como um reforço de indignação, auxilia no tom militante no final do filme. O antagonista é poderoso, venceu a batalha, mas por princípios e porque ele não pagou por seus erros, a mensagem do herói no final é que a luta continua.

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